Enquanto, melodicamente, a canção vai se permitindo mergulhar no universo da soul music com direito a brisas de um baixo groovado e lapsos sensuais da acidez adocicada do hammond, liricamente a obra vai se desenvolvendo de forma a explorar o que vem à mente quando se trata da palavra ‘preto’ nos contextos social e cultural. Combinando diferentes vozes que trazem diferentes pontos de vista a partir de tal proposta, Life In Black traz a cor preta, pura e simplesmente, como sinônimo de força, resistência e empoderamento.
Diferentemente da obra anterior, aqui se propõe o desenvolvimento da parte devidamente instrumental. Sincopada e sensual no que tange a noção de fluidez estrutural, a faixa combina sonoridades que exalam consistência e precisão, o que, no universo sensorial, se transformam em rebeldia como forma de enaltecer aquilo que é de direito. Wade In The Water traz consigo uma narrativa lírica calcada na paisagem típica do rap, com versos rimados e lexicalmente cadenciados, os quais, com um toque de ousadia, se fundem à contribuição dos sonares percussivos. Esses elementos, uma vez mais, dão a ideia de resistência e luta associadas ao que é de natural.
Na companhia de Skyzoo, a faixa que se apresenta se permite mergulhar em um universo surpreendentemente psicodélico. Mesmo na presença de um baixo de groove marcante e saliente, a faixa exalta sonoridades sintéticas que incentivam um estado de introspecção capaz de abrir a mente e expandir os sentidos. Surpreendentemente, esse caráter, conforme a faixa se desenvolve, vai servindo como uma espécie de cama ao enredo lírico cadenciado na métrica do rap. De beat preciso, ainda que de nuances sintéticas, EyeWonder – Intro Flip é uma obra contagiante, mas de enredo lírico que incita, fortemente, a reflexão.
Assim como aconteceu com a faixa de abertura do álbum, Identity In Black, na forma de um interlúdio, explora o que o DNA preto significa e representa para as pessoas pertencentes a essa parcela populacional. Novamente, a luta e a resistência são citados como os principais elementos a ela associados. Aqui, porém, se somam dois novos fatores: a cultura e a história como alicerce de seu legado.
Entre os batuques do atabaque e do agogô, bem como com o vaivém da sonoridade opaca do sintetizador, a energia que se transpira é amorfinante e, consequentemente, entorpecente. A partir dessa tranquilidade imposta, uma voz masculina levemente fanha funciona como o elemento que dá vida ao enredo lírico da presente obra. Com a participação de nomes como Elisa Latrice e Add-2, King’s Speech se mostra um rap mais introspectivo que transpira uma essência reflexiva e, consequentemente, pensante.
Definitivamente, esse não é um álbum qualquer. É um álbum que representa uma homenagem e um agradecimento no sentido mais estrito da palavra gratidão. A Film Called Black combina testemunhos de pessoas reais sobre o que a cor preta significa para cada um, ressaltando o legado, a história e a cultura de resistência, força, luta e perseverança.
É um álbum que, em sua máxima totalidade, disseca e dilacera todos os aspectos da comunidade preta. Além das dores e do consequentemente sofrimento, o álbum explora toda a resiliência, a perseverança, o empoderamento e um senso inquebrantável de confiança que exala de tudo o que diz respeito à cultura preta.
Entre o rap e o soul, Cam Be e Neak, esteticamente, fazem do álbum uma experiência que vai da introspecção a um caráter transcendental no que tange a percepção da identidade. Ainda que visível principalmente através das cinco primeiras canções de sua lista de canções, a aquisição do senso de pertencimento e o enaltecimento da consequente gratidão dão ao material uma visão de contentamento misturado com um propósito de homenagem. A Film Called Black é, portanto, uma espécie de projeto que vangloria a vida preta em todos os seus aspectos.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/43Uz3wKgS1vaJ2xKCvEH8E
Instagram: https://www.instagram.com/camovement/
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