Seu despertar imediato chama a atenção do ouvinte em um súbito. Afinal, a forma como é construída traz consigo uma estrutura surpreendente. Por meio de um coro uníssono de vozes sintônicas, ela vem baseada em um estilo operístico tal como o Queen experienciou no início de algumas de suas obras, como Somebody To Love. Dramática, para dizer o mínimo, a faixa-título se aventura por diversas texturas, as quais vão do dulçor ao encorpado e ainda chegam a beirar o azedo em meio aos distintos timbres que preenchem seu ecossistema minimalista até que ele se torna lexicalmente entorpecente em meio a um mergulho no eletrônico.
Ela pode oferecer brisas oníricas. Pode, inclusive, provocar a introspecção. Incentivar o torpor. Porém, a verdade é que, diante de sua delicadeza de sabor doce e de textura sintética, a canção propõe ao ouvinte uma viagem sônica semelhante àquela vivida na obra anterior. Porém, ainda que ondulâncias digitais e levemente estridentes sejam percebidas, addicted to attention parece escolher por se aventurar em mundos mais inclinados à new wave. De paisagem teatral, é interessante perceber que a obra consegue fazer o ouvinte viver sensorialmente a tensão, o suspense e a expectativa ao mesmo tempo em que Jon Darc, com sua voz agridoce e sua interpretação lírica provocantemente cínica, estimula a crueza sem fazer com que a canção perca a sua base amorfinadamente intimista.
É verdade que o sonar adocicadamente sintético que puxa a introdução da presente composição faz com que o espectador viva menções sensoriais inerentes tanto à psicodelia quanto a brisas progressivas. Diante disso, a base harmônico-melódica vai sendo construída por um sintetizador capaz de soar hipnotizante. Capaz de atrair o ouvinte para si e colocá-lo em contato direto com uma sensualidade paulatinamente marcante e sedutora. Mantendo a mistura equilibrada de drama e acidez no que tange o aspecto de crueza, porcelain explora um texto lírico-sonoro lexicalmente dramatúrgico e denotativamente teatral. É aqui que, inclusive, Darc mostra ligeiras influências estéticas de Elton John na maneira como constrói a teatralidade do som.
Pulsante, sombria, bruta e embebida em torpor. Introspectiva em sua máxima essência, a canção mostra a sua capacidade irreverente de elevar a new wave a outro nível. Um nível que não é apenas a pura dramaturgia que fala, mas a combinação de expressionismo, provocatividade e o puro experimentalismo sônico. Indubitavelmente, k€€p th€ chang€ se mostra a canção mais autêntica de todo o EP.
É difícil encontrar um material musical que una diversos universos de forma a soar autêntico e não excessivamente apelativo. Com ambrosia, felizmente, Jon Darc conseguiu tal feito. Com o EP, o cantor não apenas foi feliz em trazer um som experimental, mas de fazer, dele, uma espécie de fusão entre teatro no que tange o viés cênico, dramatúrgico, e a moda, no que se refere à beleza, ao exibicionismo e à sensualidade.
Tudo isso está impresso de forma cristalina em cada uma das seis faixas que moldam a track list do material, mas é inquestionável que as quatro primeiras merecem maior crédito. Nelas, além de Darc destrinchar, dissecar a sua essência artística ao máximo, mostra, sem medo, algumas de suas influências musicais usadas para criar cenários sonoros únicos e originais. ambrosia é, realmente, um produto multifacetado, versátil e que carrega o significado da palavra arte.
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