Around The World…Music | Koradan lança álbum de estreia que explora a linguagem universal do som

A introdução da faixa consegue capturar não só a atenção, mas a curiosidade do ouvinte. O colocando diante de uma experiência sensorial profunda, a composição molda seu nascimento de forma a transpirar uma identidade atmosférica bastante regional em razão dos instrumentos que a preenchem. Na presença de uma flauta folk que, com seu dulçor melismático característico que se assemelha à performance da flauta de pan, além de um violoncelo sustentado, a composição assume uma natureza dramática e charmosamente regional. Tendo o violino como importante elemento a moldar a sua base melódica, Tanec Vetra ainda conta com a textura opaca e graciosamente melódica do mandolin na construção de um escopo sonoro de conotação entorpecidamente esotérica. 

De nascimento mais agitado do que aquele vivenciado na faixa anterior, Suflower traz o mandolin como o instrumento responsável por puxar a introdução da obra com um compasso melódico ligeiramente sincopado. Construindo consigo uma sonoridade que encarna interessantes nuances árabes em seu contexto melódico, a faixa chama a atenção pelo experimentalismo de superfícies e sabores. Afinal, existem o ácido, o doce e o cautelosamente opaco dividindo harmoniosamente o mesmo espaço, mas sem interferir em sua máxima delicadeza. Ainda assim, é inevitável a percepção de que o principal chamariz da obra está no escopo percussivo. Entre shakers e o tambor, a composição é feliz em extrair, de tais instrumentos, uma natureza tribal que a envolve com elegância.

É bem difícil não se permitir entorpecer com uma introdução de caráter profundamente atmosférico. Entre o mandolin e a flauta folk, o que acontece é a criação de um ambiente esotérico de capacidade introspectiva inescapável, mas de frescor confortavelmente envolvente. Delicada, intimista e serena, Nuages explora uma sensação flutuante e levitante. Uma leveza até complicada de se mensurar ou mesmo descrever. O mais interessante, nesse ínterim, é perceber que, por mais que a percussão seja um âmbito perceptível e que conta com elementos como shakers e reverse crashes, ela funciona simplesmente como um suporte orgânico e cinemático para um ecossistema dominado pelo senso precisamente atmosférico e transcendental.

O violino surge por entre uivos consistentes moldando os primeiros sinais sonoros da composição. Tal como se anunciasse o crepúsculo nascente do novo dia, ele oferece um toque de dulçor levemente estridente que rapidamente se funde ao sonar folkeado e regional daquilo que, aqui, soa como um buzuq. Na presente faixa, importante destacar, esse instrumento realiza modulações melódicas que muito encarnam o ecossistema árabe encapsulado na identidade do maqam. Outro detalhe importante de se destacar em Tarab Cafè é a presença de uma textura aveludada e levemente estridente. Vinda do ney, ela traz consigo um sentimentalismo profundamente melancólico que é graciosamente associado às músicas de origem tanto persa quanto turca e árabe.

Dizer que Around The World…Music é um disco espantoso, pode ser minimalista e piegas demais. Afinal, quanto mais cresce e evolui diante de sua extensa sequência de faixas de 14 títulos, mais ele surpreende na forma como explora texturas e sabores sonoros perante uma combinação instrumental de caráter incontestavelmente regional.

Delicado em sua essência, o disco traz consigo texturas ásperas, sabores azedos e ambientes de experiências sensoriais hipnoticamente etéreas, esotéricas e, até, profundamente atmosféricas. Fluindo entre um ecossistema de referências árabes que pincelam a musicalidade turca e persa, o disco se vale pela sua ousadia sônica e pelo seu mais profundo regionalismo alcançado pela fusão de instrumentos de nuances folks envolventes e cinemáticos.

Ainda que as quatro primeiras faixas se destaquem por trazerem esses apontamentos com mais clareza, títulos como Hara, por trazer consigo o som ambiente da chuva; Naamu Bowe, por combinar a diplomacia do bongô com a textura dos shakers; e Gothic Clagan, com a sua ambiência surpreendentemente cavernosa e sombria, destacam uma vez mais a amplitude sensorial do disco. Dessa forma, Around The World…Music se consagra como um material em que o ritualístico, o folk e a expressividade moderna conseguem coexistir.

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