O álbum se inicia com uma energia branda. Uma maciez de caráter estonteante que chega a até mesmo entorpecer o ouvinte pela sua temática enérgica um tanto alucinógena. Mesmo que exista a presença do baixo criando uma sonoridade de viés pouco mais consciente, o torpor é uma qualidade que se apresenta em demasia durante o andamento de Assassin’s Creed Freestyle. Claro que o beat é um detalhe a se levar em conta. Afinal, é ele, com sua precisão notável, que sugere uma boa noção de movimento e consistência à composição. Além disso, também é de responsabilidade do escopo rítmico fornecer a base da cadência a ser adotada durante a elaboração do enredo lírico, o qual é estruturado em equilíbrio perante a participação tanto de T.E.E. quanto de T-Quail, os quais se revezam entre tons graves e agridoces.
É verdade que uma vinheta narrada por sobreposições vocais femininas dá à nova introdução uma essência ligeiramente sensual, mas embebida em uma interessante mistura entre paisagens estéticas do soul e do R&B. Transformando a energia da obra em algo dramaticamente pungente, esse recorte lírico embrionário faz com que o lirismo seja pronunciado de maneira um tanto cabisbaixa. Reflexiva. Ainda assim, enquanto as vozes femininas preenchem o espaço harmônico presente entre a melodia sintética e a camada lírica, Written In Stars chama a atenção por trazer um contexto estético delicado de energia sonhadora. Esperançosa.
O sonar sintético, desde o início, explora uma viagem sensorial convidativamente entorpecente enquanto imita, através do sintetizador, a essência do hammond e sua natureza adocicadamente ácida. De beat pulsante e, consequentemente, uma vertente rítmica bem marcante, a canção acaba garantindo para si boas menções de fluidez, enquanto se percebe imersa em uma espécie de maciez esteticamente inebriante. Com boas participações do baixo, elemento que confere ao cenário boas noções de consistência e encorpamento melódicos, TNT, curiosamente, consegue assumir uma postura estruturalmente contagiante.
Aqui a cenografia estrutural se mostra um pouco diferente. Isso acontece pela simples razão de Ruff N’ Tuff trazer uma participação mais assídua do subgrave em sua receita estética. Por meio de seu uso, a canção dá ao escopo rítmico doses extras de precisão, o que, consequentemente, torna a paisagem geral mais forte e firme em sua desenvoltura conjuntural. No entanto, é preciso salientar que, o coro de vozes femininas inserido nos espaços entre ritmo e melodia confere à faixa uma energia palpável pegajosamente melancólica.
Dentro de uma track list de 11 faixas, as quatro primeiras dessa lista se destacam pelas suas energias pungentes e por elas, juntas, oferecerem uma mistura de densidade e leveza sob uma paisagem estética bastante equilibrada. Inclusive, são nesses quatro títulos que se percebe, com maior clareza, a sintonia afiada entre as divisões líricas bem marcadas entre T.E.E. e T-Quail. É claro, no entanto, que Assassin’s Creed não se resume estritamente a essas obras.
No decorrer de sua execução, o álbum ainda convida o ouvinte a caminhar por ambientes que incitam o torpor e a imersão em cenários fantásticos, quase como se sob efeito do contato intenso com o inconsciente. Estimulando e explorando a sensibilidade do espectador quanto às diferentes texturas que regem suas composições, o disco traz consigo um rompimento nos limites sonoros predeterminados pelo rap em si.
A partir dessa constatação, é possível aferir que o álbum dialoga diretamente, também, com paisagens estéticas de ritmos como R&B e o soul. Esses gêneros musicais, inclusive, são os responsáveis por inserir, na receita sensorial, generosas doses de dramaticidade, compaixão e delicadeza. Com essas qualidades pairando o disco como um todo, o espectador adquire mais confiança na sua percepção dos enredos líricos.
Abordando a realidade nas ruas de Goldsboro, além de temas mais direcionados e focados inerentes à resiliência, à superação, à esperança, à determinação, ao respeito, à sinceridade e ao senso de propósito de maneira bastante pungente, Assassin’s Creed é marcado por uma visão madura da vida. Esse fato é o que o torna reflexivo e ao mesmo tempo tocante.
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