É como um sonar tecnológico, algo que indica o funcionamento de um equipamento aparentemente robusto. De estética linear, curiosamente adocicada e, também, sutilmente ácida, essa essência sonora é, pontualmente, rompida por ecos suavemente tilintantes de natureza gutural. A partir daí, Babi Yar consegue explorar tensão, mas, mais do que isso, faz com que o ouvinte exponha a sua máxima fragilidade em virtude da construção de uma atmosfera que, invariavelmente, incita a insegurança. Nem mesmo o surpreendente canto árabe que surge em dado momento consegue suavizar esse estado de puro temor.
Leves estridências vêm e vão. É como uma onda que, ao mesmo tempo, traz e devolve ao mar certos objetos e sensações. Dentro dessa sonoridade de alma crua, é possível de se perceber, de maneira surpreendente, um toque melodioso tentando romper as robustas camadas de um chão que divide o céu e o inferno. Em cada fresta existente em meio às rochas, um sopro de nuances doces são sentidas vindo daquilo que parece ser um violino aprisionado. Ainda assim, a densidade volta com força. Como uma sentinela, a batuta, ao entrar em contato com o violoncelo, não traz o drama, mas o denso e o sombrio. Em Black Clouds ainda é possível de se perceber incursões rítmicas calcadas em um embrionário trap enquanto curtas linhas líricas são estruturadas sob um viés puramente hipnótico.
Oferecendo algo mais palpável e, portanto, realista, ainda que envolto em uma natureza sintética, a faixa coloca em cena um andamento rítmico maduro formado através de um beat que exorta boas noções de fluidez e, até mesmo, maciez. Se mantendo como uma base imutável, essa mesma levada percussiva acompanha o ouvinte em uma exploração por um ambiente sombrio que beira o asqueroso. Com direito a crescentes de caráter épico, a faixa-título fornece uma vivência diferente no que tange o drama, o pungente e o vulnerável.
Assim como aconteceu na faixa-título, a presente obra também destaca uma espécie de instrumentação mais tradicional. Transpirando uma acidez adocicada aparentemente proveniente do hammond, a obra transpira um toque psicodélico denso e penetrante. Como se a luz natural do dia conseguisse romper, com dificuldade, as densas camadas de fumaça, I Did Not Kill Her explora uma espécie de tensão teatral a partir de sua paisagem sonora. Ainda que se configure como a música mais curta do álbum, a composição testa diversas texturas de forma a combinar pungência, aspereza, estridência e torpor em meio a um toque sombrio tão denso quanto o umbral.
Definitivamente, BLINDED é um álbum que não respeita as convenções padrões da indústria musical vigente. Mas calma. Isso é uma coisa boa. Afinal, muito além de mostrar ousadia e autenticidade por parte do Bastien Pons, essa caracterização evidencia um senso de musicalidade tão denso que permite aos seus músicos a prática da experimentação em sua significância mais léxica.
Com um total de sete faixas que superam a marca dos 49 minutos de duração, o álbum apresenta uma vasta viagem sônica. Porém, para os desavisados, despreparados e desatentos, é preciso resistência, persistência e, acima de tudo, uma maturidade emocional firme para vivenciá-la.
Isso porque BLINDED não se amedronta nas propostas sensoriais dispostas através de suas composições. Elas estão ali para quem as quiser sentir. O drama e a tensão dividem o mesmo espaço do dulçor, da pungência e do torpor. Todas essas texturas e emoções, porém, são interligadas detalhes em comum: a insegurança, a fragilidade e a vulnerabilidade. Apesar de serem sinônimas, no presente álbum, cada uma dessas palavras têm sua própria alma.
Ainda que notáveis com mais precisão no decorrer das quatro primeiras faixas da track list, essas emoções estão por todo o lado. O difícil, para todo e qualquer ouvinte, é se manter lúcido diante das atmosferas sombrias que transpiram crueza e um minimalismo estrutural cheio de texturas industriais.
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