A excentricidade já se mostra diante do primeiro sinal sonoro que rege a introdução da canção de abertura. Ofertada por um baixo de postura saliente e encorpada, ela favorece a percepção de um corpo generosamente consistente que avança por entre uma movimentação levemente ondulante. Ganhando uma ambiência rítmica de inclinações sintéticas de forma a flertar com um caráter intimista e atmosférico semelhante àquele desfilado pelo Linkin Park em suas respectivas canções, Sunshine é capaz de envolver o ouvinte tanto em uma cenografia de céu poente quanto em um cenário de céu nascente. Favorecendo a ideia de crepúsculo, portanto, a faixa dá vida ao seu enredo lírico a partir de uma voz aguda e de natureza digitalizada que se percebe por meio de pronúncias sussurrantes. É assim que o torpor molda toda a experiência sensorial do ouvinte diante da desenvoltura da faixa.
Pulsante e contagiantemente sincopada, a faixa consegue, ao mesmo tempo, incentivar a percepção sensorial de um ambiente praiano e trazer, simplesmente, a ideia de tranquilidade. Tão groovada quanto a canção anterior, é interessante perceber como o beat que molda o presente escopo rítmico parece se pautar tanto nas influências do afrobeat quanto na do baião. Enaltecendo a sua natureza curiosamente atmosférica em razão da interpretação lírica sussurrante assumida por BEOM, Paint Me Blue se mostra envolvente e contagiantemente embriagante.
Trazendo, desde seu início imediato, a ideia de uma ambiência espacial e hipnótica, a faixa se apodera das brisas etéreas presentes durante esses instantes sonoros para encaminhar o ouvinte para um momento em que os pulsos rítmicos, abafados e sequenciais, introduzem o ambient techno como parte de sua receita conjuntural. UFO, a partir desses quesitos, se mostra uma obra muito mais baseada em textura do que em melodia de forma a prevalecer uma progressão sutil com camadas graduais e repetições hipnóticas.
Novamente trazendo o baixo como um importante elemento da receita sonora, a faixa, de uma maneira mais enfática, o apresenta como uma inquestionável assinatura sonora por parte de BEOM. Sempre com bastante destaque, o instrumento, aqui, se mostra bojudo e inserido organicamente em um contexto rítmico mid-tempo delicado e pulsante capaz de fornecer boas noções de movimento. De sensorialidade entorpecente, Give It Time, curiosamente, é respaldada por generosas, mas controladas, menções de sensualidade, detalhe que torna a sua textura mais aveludada e, até mesmo, introspectiva.
HOME, apesar de ser um material de estreia, apresenta um artista consciente de sua musicalidade e de suas influências estilísticas. Chamando a atenção por trazer o baixo com generoso destaque perante a sua esfera sonora, o material se consagra por apresentar uma narrativa contínua que é baseada, especialmente, em atmosfera e sensação, e não apenas e necessariamente em grandes contrastes estruturais.
Agraciado por texturas macias e sensações que vão do torpor, passando pela maciez e chegando até mesmo em um escopo de caráter espacial, o EP é agraciado por boa menção de fluidez e marcado pelo equilíbrio entre emoção e espaço. Não é à toa que suas quatro primeiras faixas se destaquem em relação às demais. Afinal, elas enaltecem a sua natureza contínua ao mesmo tempo em que o fazem um produto de conceito coeso baseado no ambient pop e no eletrônico introspectivo.
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