Black Astronaut Records anuncia The Walrus, the Ninja, and the Gypsy from Sydney, álbum que oferece um despertar espiritual

É interessante perceber a existência de uma espécie de sensualidade fora do padrão em meio à introdução. Ácida, estridente e rígida, essa movimentação rítmico-melódica é capaz de trazer uma sonoridade experimental que chama a atenção pelo seu viés hipnótico e liricamente penetrante. Guiada por uma narrativa vivida por uma voz masculina de tom intermediário, a faixa se confunde entre brisas rappeadas e uma atmosfera curiosamente onírica, fantasiosa. Agraciada por uma melodia cuidadosamente adocicada moldada pela fragilidade do teclado, Staring At The Ceiling é marcada por uma identidade lexicalmente entorpecente.

O sample reproduz, aqui, uma melodia sintética icônica. Um momento de pura nostalgia e retorno direto ao ano de 2010. Com sua sonoridade levemente borbulhante e seus pulsos suavemente marcados, a introdução de The Ambient Rap traz consigo a estética rítmico-melódica inicial de The Real Slim Shady, single de Eminem. Em cima dessa base, a presente composição é agraciada por um conteúdo lírico sincopado e atraente que prende facilmente a atenção do espectador.

Ao contrário do que acontece na faixa anterior, aqui se retoma o viés de autenticidade em meio a uma introdução de caráter entorpecidamente amaciado. Mantendo um escopo rítmico sincopado, mas prosseguindo, surpreendentemente, com a ausência do uso de subgraves, Pawn My Kidneys imprime os caráteres de fluidez e veludo justamente na sua paisagem percussiva. Inevitável, no entanto, a constatação de que a forma como o cantor interpreta a letra coopera em demasia com a aquisição e amadurecimento do senso de fluidez associado à estrutura da obra. 

Entre pulsos interessantemente doces moldando a atmosfera introdutória, a faixa combina sobressaltos líricos digitalizados em um tom agudo com uma sonoridade sintética delicada e de capacidade sensorial surpreendentemente dançante. Evoluindo com direito a um consistente amadurecimento de seu escopo rítmico pulsante, a faixa explora uma envolvência totalizante em razão da forma como é construída. Esteticamente frágil, mas explorando uma natureza curiosamente radiofônica, Jipped By The Gypsy, na forma da canção mais longa do álbum por superar a marca de sete minutos de duração, surpreende por ser uma obra que oferece uma mistura ousada de rap e house ao mesmo tempo em que apresenta a proeza de não cansar o espectador.

Não de forma identica à exercida em The Ambient Rap, mas parte da sonoridade sintética, em virtude do tom e da cadência, traz consigo a exata métrica utilizada por Soulja Boy no amanhecer de Crank That, seu respectivo single. Felizmente, porém, a adoção de um andamento rítmico ligeiramente acelerado e singelas mudanças no compasso da sonoridade melódico-sintética, a presente faixa adquire contornos de autenticidade. Com lirismo envolvente e penetrante, Who Is The Ninja?, apesar de se enveredar em meio a uma linearidade percussiva, oferece fluidez através do conteúdo lírico.

The Walrus, the Ninja, and the Gypsy from Sydney não é apenas um simples álbum de rap. É um conteúdo que combina autenticidade e nostalgia. Que traz consigo versos líricos e cadências rítmicas sincopadas com frescor e suavidade estrutural. Um produto livre de amarras padronizadas que dispensa o uso de subgraves e se permite experimentar texturas que não se apoiam exclusivamente em autotune.

Chamando a atenção a partir de suas cinco primeiras faixas em virtude de sua transparência estético-estrutural, o álbum é, em si, atraente, leve, contagiante e radiofônico, mas sem ser apelativo. Um produto que, em suma, é capaz de atrair ouvintes de outras tribos musicais em meio ao seu rap viciante e hipnótico.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5kYJFg5YmsmzvB1VCEQaqV

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