O sombrio é um detalhe que permeia a experiência sônico-sensorial do ouvinte desde o início imediato da composição. Com sua sonoridade sintética, é como se ela conseguisse representar, com uma exatidão exemplar, um ecossistema nebuloso e abissal. Capaz de fazer o ouvinte sentir a solidão gelar a espinha por promover intensos sensos de insegurança, fragilidade e desproteção, a faixa-título vai envolvendo o espectador a partir de uma levada rítmica sincopada nos moldes exatos do trip hop. Penetrante ao mesmo tempo em que é recebida de forma viciante e hipnótica, a composição se aventura por entre a exploração de texturas ácidas e ásperas como forma de prevalecer um premeditado toque trevoso.
Em comparação com sua antecessora, a presente composição é tomada por um alicerce rítmico mais denso e rígido. Duro, melhor dizendo, ele restringe bem a aquisição de uma percepção de movimento fluida por parte do ouvinte. Ainda assim, a faixa não esconde a sua natureza sincopada. Mesmo percebido em meio a uma identidade sônica linear, entorpecente e hipnótica, é esse o detalhe que faz com que o espectador não se sinta tão preso e enclausurado. Afinal, de certa forma ele é capaz de fazer com que REM ofereça um mínimo de noção de movimento, ou, melhor dizendo, a necessidade dele.
É como uma possível trilha sonora de um filme de suspense. Seus pulsos duros e sua inclinação nítida para com uma crueza facilmente associada à paisagem sônica do lo-fi fazem com que a canção se enverede para um campo inóspito que fecunda e amadurece o senso de fragilidade no ouvinte. Ainda assim, palavras como intrigante e inquietante são melhores para descrever o efeito da presente composição diante da percepção da audiência. Dominada e governada agora por Josi Devil, a versão remix da faixa-título parece tentar, sem sucesso, censurar a estrutura rítmica trip hop, a deixando escapar por entre momentos em que soa opaca e repreendida.
O chimbal é ouvido de forma seca e fraca perante a presença de chiados insistentes, mas não brutos, dominando o ecossistema ainda em desenvolvimento. Com nítidas inclinações para com o sombrio e o abissal, tal como a versão original da faixa-título, a canção consegue fazer, da solidão, um verdadeiro incômodo rascante. Com direito a mergulhos por um universo que flerta descaradamente com o gutural, é interessante perceber que Dream Transmission ainda é capaz de oferecer boas doses de uma embrionária sensualidade a partir de sua levada rítmica. Esse detalhe, inclusive, faz com que a canção enalteça o caráter aventureiro do EP.
Black Box é um EP que não pode apenas e tão somente ser descrito como um material instrumental. Eis, aqui, um conteúdo de veias experimentais audaciosas e charmosas que mistura o urbano e o marginal com o moderno e o sensual. Embasado em bases rítmicas trip hops, o extended play transpira precisões cirúrgicas enquanto permite que o ouvinte viva uma gama diversa de sensações e sinta diferentes texturas que enriquecem a viagem sônica aqui ofertada.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/1T8JRy1UCoK1sOrHiMvszB
Soundcloud: https://soundcloud.com/ghostwarrior
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