Brendan Ranney retorna após 19 anos com Slightly Out Of Focus, álbum de caráter profundamente pessoal

Ainda que ela traga consigo um caráter pulsante e sincopado que lhe concede uma boa aparência de fluidez, a faixa não comunica, necessariamente, uma energia expansiva ou mesmo contagiante. Com um viés sério e introspectivo, a obra concede ao ouvinte um senso contemplativo bastante associado à reflexão. Groovada em razão do destaque do baixo na base melódica e com doses adequadas de frescor, a faixa ganha um lirismo que vem sob uma pronúncia sussurrante que sugere, com folga, o estado de torpor. Linear no que tange aos seus âmbitos harmônicos, melódicos e rítmicos, My Existence (No, Not Today) tem, em si, a introspecção como a sua principal marca comportamental.

De ritmo leve e cuidadosamente quebrado, a presente canção continua apoiada na esfera da introspecção, mas, agora, com uma nuance extra de suavidade ofertada justamente pelo seu aspecto percussivo. Graças à inserção de elementos como a sutil aspereza do shaker como fator a denotar, além de uma textura que conduz à lucidez, um aspecto que sugere movimento, Last Ride ainda se consagra pela obtenção de um aroma bucólico envolvente e penetrante.  A partir de um lirismo de aspecto curiosamente aconchegante, Brendan Ranney consegue, aqui, conquistar o ouvinte com a sua delicadeza interpretativa ausente de efeitos sensoriais maciços. 

Pela maneira com que a composição tem a sua introdução anunciada, o ouvinte é colocado em contato direto não apenas com o sentido léxico da dramaticidade, mas, inclusive, com um toque de tensão que deixa o ambiente ainda mais intrigante. Tanto em razão da afinação do violão como o movimento melódico por ele adotado, a composição penetra no interior do ouvinte com uma densidade diferenciada que, invariavelmente, coloca a melancolia no centro da sua proposta sensorial. Intimista e marcada por uma interessante exploração de texturas que contribui para a amplitude emocional pretendida, Second Son não traz apenas o lamento. Traz o soturno associado a um toque sombrio, desmotivador e pegajosamente entorpecido. É quando a guitarra surge com uma distorção áspera e suspirante, esse peso de culpa atinge um apogeu que transcende os limites do próprio som.

Ela pode até ser intimista e denotar a melancolia, mas isso não afasta o fato de que, pela sua movimentação melódica, o aspecto de balada domina o seu âmbito estético-estrutural. Graças à movimentação e à afinação adotadas pela guitarra em meio à sua aparência limpa, a composição exorta profundidade emocional e uma liberdade em relação ao próprio sofrimento. Contando com um aspecto rítmico interessantemente sincopado que garante precisão e notas extras de fluidez, Where I’ve Been parece se apoiar em uma agonia censurada pela intensa busca de pertencimento e propósito, a qual ecoa pelo ambiente graças ao suave reverb presente nas pronúncias do vocalista.

Ele não pode ser definido apenas e estritamente como um álbum focado em texturas, afinal, durante a sua trajetória total, Slightly Out Of Focus se destaca ainda mais pela sua intensa jornada emocional. Imersivo, denso e com uma sonoridade bem trabalhada em razão do apurado trabalho de mixagem, o disco é marcado pelo torpor, pelo sofrer e por um drama lancinante difícil de conter.

A cada novo capítulo que o ouvinte se permite avançar, o material presenteia com jornadas emocionais que sugerem a reflexão de uma forma incansavelmente pungente. Sempre introspectivo, o conteúdo não teme as sombras nem o hipnotismo pela culpa, questões muito bem marcadas especialmente no decorrer das quatro primeiras músicas de sua sequência de faixas.

Ainda assim, I Remember You, com a sua guitarra contemplativamente entristecida; I Don’t Want To Go, apoiada em uma base blues incontestável; e Might Not Be, com o seu viés lírico motivacional, são títulos que auxiliam no peso do álbum. É assim que Slightly Out Of Focus se consagra como um produto de caráter profundamente pessoal ao lidar com temas como perda, autorreflexão e redescobrimento.

Mais informações:

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