Entre flores e aromas perfumados, o ouvinte flutua por um ambiente leve, mas denso em um estado de melancolia curiosamente entorpecente. É verdade que a maneira com que o piano se movimenta espalha pela atmosfera notas ondulantes de dulçor, mas, ao mesmo tempo, é dela que se origina a dramaticidade latente que configura a experiência auditiva vivenciada pelo espectador. Delicada, I Know This Kid assume silhuetas ligeiramente viscerais intrincadas em ideias preconcebidas de um toque autobiográfico a partir da entrada de Tuck Nuisance, seu timbre grave intermediário e sua cadência lírica sincopada. Para aqueles que prestam atenção, a canção soa como um vaivém entre presente e passado rememorando a infância com a maturidade da fase adulta.
Da mesma forma como aconteceu na faixa anterior, o piano é, aqui, também o instrumento que puxa a introdução. Propositadamente desajeitado e com um interessante viés cínico transpirando de seu movimento ligeiramente circense, ele é rapidamente acompanhado por um violino que rasga a atmosfera com uma pronúncia tremulante e, principalmente, dissonante. Surpreendentemente, é esse novo elemento que acaba funcionando como a cama harmônica que acompanha toda a composição, especialmente oferecendo um consistente embasamento para o desenvolvimento lírico pulsante de Nuisance. Sem crueza ou excesso de pressão, Two chama a atenção pela sua dramaturgia que, aqui, garante um caráter interessantemente urbano.
Macia, mas densa e, inclusiva, tensa, a canção é marcada por um beat preciso, de aparência acústica e que, aqui, vem como responsável pela difusão do senso de dramaticidade. Por meio de seus pulsos, o viés percussivo abraça as notas enxutas do piano como uma espécie de amplificador sensorial para um dulçor de receptividade palatina visceral. Liricamente moldada, ao menos durante a introdução, por uma interessante sobreposição vocal formada entre um timbre digitalmente agudo e o tom limpo de Nuisance, No Limit acaba explorando algo inédito até então. Com uma sensorialidade que consiste no sombrio noturno, a canção funde esse caráter emocional com a densidade e um estado pungente de drama que a torna, invariavelmente, um produto marcante.
O charme, a paixão e a sensualidade aveludada de um embrionário jazz moldam o ecossistema a tal ponto de fazer o ouvinte se sentir em um salão de Nova Orleans. Graças ao dulçor estridente e educadamente provocante do saxofone ao lado de uma linha lírica crua e um piano de extrema fragilidade, a introdução fornece uma espécie de transcendência utópica para o que a sucede. Afinal, rapidamente esse trecho amaciadamente dançante dá lugar a uma composição que se usa de sobreposições vocais de sua estrutura com o timbre de Nuisance adquirindo a típica cadência rap. Sem brutalidade ou crueza, portanto, Ride Or Die oferece ao ouvinte uma interessante fluidez ligeiramente liberta da dramaticidade.
Como primeiro álbum, Burden To The World apresenta uma estrutura envolvente, cinematográfica e sensorialmente profunda. Trazendo identidades típicas do rap, como lirismos sincopados, rimados e com algo a dizer, além de contar com beats marcantes, o álbum é marcado pela presença de instrumentações realistas que entregam alma aos seus diálogos verbo-melódicos.
Envolto em dramaturgia, o material oferece ao ouvinte uma viagem emocional pelo drama, pelo visceral, pelo torpor e por conteúdos que, invariavelmente, conferem uma conotação autobiográfica, o que amplia a sua natureza pungente. Nesse aspecto, o que chama a atenção é a independência que Tuck Nuisance apresenta em relação ao uso de subgraves. Se ele existe, é mínimo, mostrando maturidade, consciência e versatilidade na obtenção desses sentimentos através do som.
Com bastante presença do piano como instrumento que, além de fornecer melodia e harmonia, funciona como a voz sonorizada do inconsciente encontrando a realidade. Não existe agonia em sua desenvoltura. Apenas o puro e coeso sentimentalismo que, por vezes, encontra a companhia de outros elementos, como é o caso do saxofone. Ainda que, portanto, as quatro primeiras faixas mereçam maior atenção por trazerem essas questões com mais transparência, o álbum é, por completo, uma experiência áudio-sensorial completa e digna de atenção. Afinal, cada um de seus 14 títulos são vivências de extremas particularidades.
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