Chant! é o álbum em que Vidura Barrios propaga o relaxamento pela meditação. Ouça!

Uma voz masculina parece surgir de forma gradativa enquanto se ocupa do ambiente como sendo de posse de uma figura onipresente. Valsando pelo ecossistema a partir de seu caráter ecoante, ela induz o ouvinte a uma percepção sensorial de pura tranquilidade que o faz relaxar por completo. Estimulada pela atmosfera introspectiva, essa tonalidade vocal, inclusive, faz com que o prelúdio Krishna Invocation assuma a forma de um mantra penetrante que eleva a frequência do ouvinte.

A combinação de elementos que rege o nascimento da composição já desfila uma capacidade nata de atração. Em meio ao timbre metálico e de nuances estridentes do sitar, a faixa consegue, com naturalidade e fluidez, desfilar sinais claros de excentricidade, os quais crescem com o auxílio dos batuques ocos do dholak. Diante desse cenário, Govinda Gopala Madana Mohana pode até garantir certo grau de dinamismo no que tange ao seu escopo rítmico, mas mesmo na presença de backing vocals cheios de serenidade a ponto de desfilar brisas espirituosas, ela não escapa da sua natureza estruturalmente linear. Afinal, essa característica se mantém inalterada durante toda a execução da obra, que possui mais de sete minutos de duração.

De energia mais introspectiva em relação àquela das suas antecessoras, a presente composição se apoia na sonoridade metálica do sitar para tentar alcançar certos traços de fluidez. Isso porque, diante da sonoridade em exercício, a voz do cantor ocupa boa parte daquilo que se considera protagonismo. Em razão da movimentação  e do próprio tom assumido pelo vocalista, o ouvinte acaba invariavelmente esbarrando não apenas em um viés mais inclinado à reflexão, mas, inclusive, esbarra em nuances densas que produzem contornos de seriedade. Chamando a atenção pela existência de uma camada harmônica preenchida pela tonalidade adocicadamente ácida do harmônio, Rama Raghava se torna hipnotizante em vista de sua natureza contemplativa consistente assumida a partir da união entre a performance do cantor e do time de backing vocal. 

Com a presença da cítara marcando a atmosfera da composição, o ouvinte não apenas se entorpece, mas se hipnotiza e petrifica diante da tonalidade brilhante, metálica e cristalina. Antes mesmo que a camada lírica se anuncie, a composição permite que o espectador entre em contato também com um sonar agudo, tilintante e cuidadosamente ecoante vindo na posse do kartal, elemento que deixa o ambiente com uma energia ainda mais entorpecente. Na forma da canção mais longa do álbum, Hare Rama Hare Krishna Kirtan se felicita da base harmônica desenvolvida pelo harmônio por ser, a partir daí, possuinte de uma postura não apenas contemplativa, mas acima de tudo pautada na identidade da adoração.

Diante das quatro primeiras faixas de Chant! o ouvinte consegue se perceber, com notável clareza, em um ambiente respaldado pelos estímulos rígidos, viciantes e hipnóticos provenientes do caráter espirituoso que carrega. Como um trabalho introspectivo, o disco combina paisagens etéreas com profundidade transcendental de forma a destacar as suas próprias silhuetas espirituosas.

Delicado e excêntrico em razão da utilização de uma instrumentação indiscutivelmente regional e autêntica, o disco se destaca por fundir lirismos pautados no idioma sânscrito que enaltecem a paisagem hinduísta que tanto marca a sua cenografia sensorial. Ainda assim, não são necessariamente essas faixas que destacam a identidade do material com mais afinco.

É 108 Names Of Shri Vishnu que faz esse feito. Contando com a presença valsante do violino com sua natureza valsante, a faixa tem, melhor trabalhada, a sua essência unicamente adoracional. Essa é, portanto, a essência de Chant!: a devoção desenhada para contemplar, meditar e relaxar.