Christmas | FERDINAND RENNIE lança álbum com a intenção de colocar o ouvinte em sintonia com o espírito do Natal

De imediato, sem qualquer tipo de delonga ou instrumentação gradativa, crescente, a composição já coloca o ouvinte diante de um ecossistema cheio de gatilhos emocionais. Abraçada por um coro harmônico e de nuances guturais, a faixa é agraciada por uma cama harmônico-melódica valsante proferida calmamente pelo violino. Com tilintares pontuais que criam e engrandecem uma percepção inerente ao senso de delicadeza, Silver Bells é devidamente narrada por uma voz masculina de identidade levemente empostada que, vinda na posse de Ferdinand Rennie, caminha pelo cenário na companhia do toque seco e sereno do chimbal indicando a cadência rítmica.

A instrumentação que puxa a introdução não é, necessariamente, complexa. Ainda assim, é inegável que a junção de diversos elementos a torna tocante e emocionalmente envolvente. Com o auxílio do charme frágil, vulnerável e doce do ressoar da harpa, a canção é respaldada, em sua cama melódica, por um toque sonoro aveludado com curiosas menções que beiram a estridência. De postura graciosamente mansa e introspectiva, mas sem se deleitar em reflexões ou, mesmo, em melancolia, O Holy Night é liricamente narrada por um Rennie de timbre ainda mais empostado do que aquele tom fornecido durante a composição anterior. Aromática e suave, a canção se vale de uma estrutura harmônico-melódica ondulante que vai entorpecendo e hipnotizando o espectador de maneira gradativa.

É indiscutível e, portanto, igualmente inquestionável, o fato de que a presente composição tem, durante a introdução e seu primeiro verso, o violão como o seu verdadeiro protagonista melódico. Promovendo um ecossistema fresco e macio, mas livre de menções nostálgicas, melancólicas, dramáticas e entorpecentes, o instrumento transforma toda aquela tradicionalidade natalina em uma paisagem sônica um tanto inovadora. Entre Rennie e seu time sincronizado de backing vocals, Star Of Wonder se baseia em uma estrutura sertaneja contagiante a tal ponto que dá, ao bucólico, um conforto extra e um brilho excêntrico.

O teclado, com sua agudez açucarada e sintética, já é capaz de entorpecer e aconchegar o ouvinte em razão de sua natureza sensorial inconfundivelmente natalina. Com o auxílio de uma guitarra cujo riff soa devidamente bojudo em meio às suas desenvolturas aveludadas, a canção consegue fazer com que o ouvinte, surpreendente e alegremente, se perceba em volta da lareira acesa em uma noite enevoada e fria. Promovendo, a partir daí, sensos de puro conforto, a canção, no instante em que as primeiras linhas líricas são proferidas, denuncia a sua identidade. Silent Night, Holy Night, diante da reinterpretação de Rennie, atinge patamares emocionais, talvez, ainda maiores que sua versão original. Mais delicada e com inclinações mais intimistas, a presente releitura trabalha de maneira a favorecer um engrandecimento na camada de veludo, o que a torna consideravelmente convidativa e surta em um efeito sensorial de segurança e proteção.

Aderindo ao time já vasto de nomes que ofereceram suas contribuições para o período natalino, seja em forma de canção, álbum ou mesmo EP, Ferdinand Rennie apresenta Christmas, um produto que busca se diferenciar dos demais cujo tema Natal seja a base da construção estrutural. Regido por reinterpretações e outras obras autorais, o produto explora esse período sazonal sob as vestes do conforto, do aconchego e, de certa forma, da veneração à imagem do menino Jesus.

Gracioso e harmonioso, o disco leva o ouvinte a caminhar por terrenos em que a sensorialidade transita da introspecção à melancolia, mas também do veludo à proteção, de maneira bastante versátil e sedutora. Acima de tudo, eis aqui um conteúdo que destaca a sensibilidade de um artista que, mesmo dando seu toque a canções icônicas natalinas, consegue fazê-las soarem de forma inédita em razão de seu consciente senso musical.

Ainda que, de uma track list de 11 faixas, as quatro primeiras obras mereçam maior atenção por salientarem o que foi pontuado até então, Christmas é como uma obra de celebração. De união. De interação. Tal como mencionado pelo próprio Rennie, o material tem como intuito pura e simplesmente ser um elo entre o ouvinte e o espírito do Natal.

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