É interessante perceber como a textura ácida de natureza sintética que rompe o silêncio e começa a puxar a introdução é capaz de envolver o ouvinte em meio a um ecossistema misto de torpor, introspecção e uma pitada curiosa de psicodelia. Mesmo que caminhe com uma desenvoltura estético-estrutural de aparência linear, a canção é capaz de ganhar o ouvinte pelo simples fato de aprofundá-lo diante de um estímulo sensorial lexicalmente entorpecente. Ganhando novas camadas sonoras, gordas e graves, mas que mantêm a sua natureza sintética, Rat Catcher surpreende por, em dado momento, ser agraciada pela presença de um beat sincopado e levemente trepidante que mistura ingredientes trappeados em meio ao seu ecossistema lo-fi.
Nascendo de maneira gradativa a ponto de evidenciar a utilização de uma base sônica pautada no efeito fade in, a faixa, desde cedo, transpira uma nuance puramente espacial que deixa o ouvinte no limiar entre a consciência e a alucinação. O interessante de se pontuar é o fato de que, aqui, o espectador dialoga com outras texturas que não puramente sintética, como o singelo reverberar da agudez das cordas da guitarra, criando um senso levemente pendente ao amaciado. Ainda assim, a combinação de sua presença junto ao massivo protagonismo do sintetizador confere à faixa-título um caráter intensamente brisante, mas obtido de forma serena e crescente. Como a maior obra do álbum em relação à duração, a composição se destaca por trazer momentos de uma delicadeza imersa em uma introspecção entorpecente rapidamente roubada por um beat sincopado que flerta vagamente com o desenho do trip hop.
Um som ácido cresce de maneira gradativa, mas de forma suficiente para causar a impressão, no ouvinte, de que, ao atingir seu ápice, é capaz de causar uma intensa combustão de forma a explodir tudo o que está ao seu redor. Mais introspectiva em meio a um tom mais sério, intrigante e sorrateiro, Retina Scan chama a atenção por namorar inclinações sônicas que beiram o sci-fi. Com direito a sonares ácidos, mas agudos e de sabor curiosamente açucarado moldando seu aspecto propriamente melódico, a faixa entrega, à sua própria base de crueza, uma conotação digestiva que embala o ouvinte em um amofinar inevitável.
A sonoridade que rege a composição é tremulante e desenhada de forma a destacar a sua textura áspera. Aqui, não há introspecção ou chances para que o ouvinte se entorpeça, ao menos, não durante a introdução. Afinal, em meio à sua desenvoltura, a canção já põe o espectador em contato com um beat sincopado de nuances arrastadas que, uma vez mais, coloca o trip hop como seu ingrediente indireto. De métrica quebrada e explorando uma conotação que beira uma espécie de alarme, DANGER! se destaca por, em meio à sua construção mid-tempo de nuances fritantes, oferecer ao ouvinte instantes de súbita calmaria. De um torpor que parece equalizar as energias em uma sintonia espacial e entorpecente que suscita um etéreo espacial.
Conforme o ouvinte vai mergulhando mais e mais fundo no enredo sugerido por Church, Caratacus vai desenhando ecossistemas indiscutivelmente embasados no espacial. Aqui, porém, existem as experimentações, as quais deixam cada ambiente mais rico e de experiências sônicas mais ousadas. Mesclando acidez com maciez e dulçor, o disco traz consigo uma receita capaz de sintonizar o torpor, o introspectivo, o etéreo e o espacial em meio a uma conjuntura marcada pela crueza do lo-fi, pelas texturas da electro, pela influência rítmica do trip hop e pelo sensacionalismo technoide.
Envolto em sintetizadores frios, atmosfera emocional que, por vezes, chega a beirar o contemplativo, e uma estrutura menos voltada ao aspecto DJ, o disco traz consigo uma união de canções embasadas, principalmente, na paisagem do indietronic. E isso pode ser muito bem percebido no decorrer das quatro primeiras faixas do material.
Ainda assim, diante de sua track list de 12 faixas, existem outros títulos que merecem atenção. A Stir se destaca pela sua atmosfera minimalista em um tom de suspense que, vagarosamente, se torna fragilmente dançante; Knocking On The Walls se consagra pela sua estética que beira o chiptune; e Observation (A Way In), pelo seu groove de identidade sensual, são outras composições que abrilhantam o material. Assim, Church tem mais consistência em meio à sua narrativa inspirada na perspectiva de um gato pertencente a uma espaçonave à beira do colapso.
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