Com o álbum Fractured Reality – Human Code, o Riverlabs traz um darkwave cinemático

A combinação de sons acaba oferecendo ao ouvinte arrepios incontroláveis. Isso acontece não em razão da voz digitalizada do vocalista, mas, sim, pelo toque ambiente do caminhar de insetos sugestionadamente repugnantes. Crua, áspera e completamente dissonante, a faixa faz, das sombras, o seu porto-seguro. Entrelaçando a estridência com uma rigidez densa, a composição, invariavelmente, explora o desconforto no espectador. Mesmo que o conteúdo lírico seja proferido entre sussurros e linhas verbais de caráter gutural, a tensão já domina todo o ecossistema de Fractured Truth, uma faixa sombria, mas capaz de fazer, da ausência de luz, um ambiente cheio de entretenimento a ponto de incentivar o espectador à dança.

O toque sonoro pipocante, sintético e agudo dá a entender que o horizonte melódico é regido por vislumbres de chiptune. Dentro desse universo, é interessante perceber que, de forma imediata, o espectador é levado a experienciar um processo de introspecção profundo, mas sem drama ou, mesmo, melancolia. Se transformando em uma obra cuidadosamente pulsante e interessantemente sensual, em certa medida, em razão de sua textura amaciada, No Signal – Sekai no owari conta com um solo agudo e estridente vindo do sintetizador e com uma narrativa exposta de maneira sussurrante. É até possível que o ouvinte seja capturado por um toque de agonia em virtude do incentivo a uma sensorialidade de solidão gritante.

Enquanto o sintetizador vai moldando uma cama melódica de natureza entorpecente, a mesma voz digitalizada entra com seu viés narrativo buscando receber o ouvinte em um novo ambiente. Ao toque dos pulsos da bateria, que se formam por entre golpes precisos e secos, a canção mergulha em meio a uma postura introspectiva inquietante. Flertando, mesmo que minimamente, com um toque de trip rop em sua estrutura, Silent Cities, surpreendentemente, vai ganhando contornos lexicalmente melódicos com a entrada das guitarras, tornando-a em uma espécie de mistura equilibrada entre aspereza e dramaticidade.

De certa forma, a introdução soa como um perfeito e sequencial batimento cardíaco em razão da natureza levemente sincopada do beat. Sob uma narrativa sinistra, Synthetic Hearts é marcada por uma abordagem melodramática intimista em que o Riverlabs discute a ausência daquilo que é real em um ambiente completamente tecnológico. Por algo que faça, do indivíduo, um pedaço humano. É justamente aí que mora a pungência e o drama da composição: nessa busca pelo real, enquanto se tenta se independer do tecnológico ao procurar por conexões orgânicas e com sentimentos palpáveis. 

Para muitos ouvidos leigos, aqui poderia ser categorizado apenas como um disco de caráter digital e sintético. Porém, Fractured Reality – Human Code guarda consigo não apenas um conteúdo lírico cheio de crísticas, mas um contexto melódico que não se preocupa em alcançar o melódico, o radiofônico e o sonoramente degustável.

Não é à toa que, perante sua lista de faixas de 12 composições, o experimentalismo é o que rege a sua paisagem sônica. Invariavelmente, o dark wave se evidencia como a base da sonoridade do conteúdo. Porém, é claro que outras roupagens acabam sendo pinceladas conforme os enredos sonoros se amadurecem. É aí que o chiptune e o trip hop aparecem, sempre elevando a energia das composições e dando, ao álbum, a chance de ser agraciado por novas texturas.

Aqui, não necessariamente que a temática do enredo lírico seja a de um mundo distópico ou de um universo utópico. Fractured Reality – Human Code é onde o Riverlabs oferece dois movimentos: a fratura e o pulso. E entre esses dois mundos, muito bem salientados perante as quatro primeiras faixas da track list, bem como em The Edge Of Time, com sua visceralidade dramática e intensa, o ouvinte se movimenta entre a desconexão e a quietude urbana para a resistência, o colapso e a revelação, questões que, invariavelmente, dominam toda a narrativa do álbum.

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