Cookin’ Up A Groove | Flat Moon lança álbum definido como uma exibição culinária de todas as suas influências

Parece mais-do-mesmo, mas não. A forma como a composição tem a sua introdução apresentada ao ouvinte é ousada e bastante autêntica. Por meio de sonares tilintantes que soam como o encosto de talheres nas superfícies de cristal de taças de água, a obra já exala boa parte de sua natureza sincopada, swingada e percussiva. Com direito a burburinhos vocais ao fundo, o que mostra um abrangente clima de descontração e improviso, o baixo se apodera do ecossistema com seu desenrolar bojudo e, portanto, encorpado. O interessante, nesse ínterim, é perceber que, mesmo soando de maneira linear, Said Groove ainda é agraciada por texturas distorcidas provenientes da guitarra, que abrilhantando a sua receita sonora.

Diferente daquilo que foi apresentado anteriormente, a nova obra é puxada direto pelo baixo e seu groove já maduro. Surpreendente e felizmente, porém, aqui a levada rítmica vem mais provocante em razão dos outros elementos que a moldam de maneira sincrônica e uníssona. Ao passo que a bateria se apresenta em meio a frases quebradas, o teclado vem pronunciando notas cuidadosamente agudas de forma enfática, mas com boas menções sincopadas. De natureza latina, sensual e denotativamente contagiante, A Moon_s Bouche é uma canção liricamente entoada por um time de vocais sintônicos que se confundem harmonicamente com a sua essência musical que denuncia a lambada como uma grande influência no que tange a sua criação estrutural.

Uma voz masculina levemente encorpada, mas atraente, agradável e de nuances curiosamente sensuais, recepciona o ouvinte para com um ambiente inicialmente preenchido por brevidades do sonar agudo da guitarra. É a partir daí que, em meio aos burburinhos de conversas paralelas, o instrumental engata em uma desenvoltura lexicalmente calcada na paisagem charmosa, requintada e educadamente provocante do jazz. Porém, é a levada rítmica desenvolvida pela bateria que denuncia esse detalhe. Com uma leveza exemplar, ela permite, inclusive, que o teclado oferece suas nuances adocicadamente ácidas e a guitarra, por sua vez, explore seu lado aveludado, de forma a fazer com que a estrutura de Private Rendezvous flerte, inclusive, com a cenografia sonora do blues.

Fora de todo o espectro até então oferecido, o Flat Moon surpreende o espectador ao introduzi-lo em um ecossistema inquestionavelmente swingado. Provocante, transpirante e sedutor, esse ambiente é marcado não somente por um baixo encorpado e por uma bateria de levada sincopada. Existe, aqui, o saxofone entregando vivacidade e um toque de sensualidade solar lexicalmente irresistível. Liricamente debochada e com inclinações de uma comicidade natural e cínica, a faixa faz, do funk, o seu combustível máximo. Com direito a um lirismo sincopado de forma a flertar com o rap, B-Funk (Get Out The Way) é outra importante faixa do álbum em que o time de backing vocal tem imprescindível participação, ampliando a harmonia lírica e tornando a sonoridade conjuntural mais melodiosa.

Eis aqui um álbum incapaz de ser unilateralmente rotulado. Ele não somente um ou outro gênero musical. Cookin’ Up A Groove é tudo. Uma perfeita miscelânea de sabores, influências, texturas e paisagens. Inclusive – e porém – não existe protagonismo. Afinal, cada uma de suas 13 faixas agrega um ecossistema diferente, ainda que flertando com bases similares.

Cheio de sensualidade, envolvência, provocação, consistência e precisão, o álbum convida o ouvinte para uma jornada musical vasta que o leva para os mundos do blues, do jazz, do funk, da música ambiente. Seu principal combustível, portanto, é a experimentação. E sua maior motivação, sem dúvida, é a liberdade criativa, questões muito bem visíveis no decorrer, especialmente, de suas quatro primeiras faixas. Ainda assim, Cookin’ Up A Groove promete uma infindável experiência sensorial enquanto discute questões como insônia, ansiedade social, relacionamento manipulativo e hiper-estimulação. Um convite perfeito para aqueles que querem sair da caixa do comodismo e do conservadorismo musical.

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