Corpse Sonata, Vol. II | MODUL8 lança álbum com brutal mistura de trap cru e dubstep

Um sonar agudo e tilintante é proferido por um instrumento de corda que, tão rapidamente é colocado em cena, envolve o ouvinte em uma experiência sensorial que mistura menções de introspecção, temor e um toque marcante de suspense. Enquanto ele promove a construção de uma atmosfera intrigante, o espectador se percebe na companhia de nuances estáticas vindas de chiados que se mostram ingredientes-base do cenário em construção. A partir daí, Scalpel The Second se mostra uma composição marcante pela sua crueza estrutural. Ritmicamente sincopada, a faixa é liricamente guiada por uma voz feminina que lhe confere uma natureza trap incontestável em razão de um lirismo cadenciado e igualmente sincopado.

Um sonar sintético dá vida ao aspecto melódico introdutório a partir de uma identidade sônica azeda e de nuances curiosamente hipnóticas. Aqui, no entanto, além do protagonismo inquestionável do trap visível em meio à interpretação lírica assumida pela vocalista, a faixa não se intimida ao ilustrar a sua inclinação profunda em relação à cenografia sônica do dubstep, a qual é perceptível em razão da performance do sintetizador. De bumbos duros, secos e bem marcados, a faixa ainda dispõe de boa noção de movimento em razão dos chimbais trepidantes que permeiam a esfera rítmica. Com brisas lírico-interpretativas enfáticas que beiram a ideia de versos de ordem e uma ideia premeditada de empoderamento, Madness Divine é uma faixa que, apesar de estruturalmente linear, hipnotiza, embala e contagia o espectador.

Inicialmente respaldada por uma paisagem introspectiva de nuances curiosamente provocantes, a faixa nasce em meio a um espectro melódico minimalista, mas já auxiliada por frases líricas de postura madura e um tanto rebelde. Amadurecida em meio a um beat de andamento interessante em razão de suas ligeiras tendências sensuais no que tange uma maciez estrutural atraente, Murder Is Medicine chama a atenção do ouvinte por alcançar contornos arquitetônicos de incentivo dançante que, invariavelmente, o coloca em movimentos corporais instintivos que seguem a natureza rítmico-melódica em execução. 

Sombria, amedrontante e crua. Essa trinca de características guarda, com grande precisão, as identidades sônica e sensorial da composição em processo de desenvolvimento. De despertar introspectivo, a faixa, sem dúvida, explora a temática cinematográfica do terror em razão do quão intenso o suspense, a expectativa e a tensão criados podem soar. Com direito a um beat curiosamente amaciado que coopera na aquisição de bons sensos de movimento e fluidez, The Rest Can Rot tem o poder de inebriar o espectador ao mesmo tempo em que desperta, nele, uma intensa sensorialidade de fragilidade, vulnerabilidade e, inclusive, insegurança. 

De fato, seria injusto focar apenas em seus primeiros quatro títulos. Ainda que eles carreguem consigo a identidade do disco, esses capítulos iniciais não são capazes de ofuscar o restante de uma generosa track list. Com uma duração total de impressionantes duas horas e onze minutos, Corpse Sonata, Vol. II é um disco que supera qualquer expectativa.

Isso acontece simplesmente pelo fato de que cada canção guarda surpresas memoráveis. Exemplos disso são percebidos diante de composições como Dissected The Sound por trazer inclinações incontestáveis de R&B especialmente pela forma como a cantora se movimenta por entre os versos líricos; Study The Energy, pela mistura rítmico-melódica soul e cadência lírica trappeada; Speaking Makes It Real, com sua introspecção sensualizante e hipnótica, mas cuja cadência verbal trappeada devolve boas doses de lucidez.

A lista ainda continua. Com um total de 39 faixas, Corpse Sonata, Vol. II mostra Cadaver Curriculum, música marcada por uma sonoridade sintética arrepiante e aterrorizante; Industry Autopsy, com sua identidade asquerosa, impactante e soturna; Ghost In Medicine, com seu uso abusado de subgraves e batida rítmica contagiantemente sincopada; e Schizophrenic Structure, com seu ritmo cru e ambiência curiosamente fantasmagórica, fecham a conta dos verdadeiros destaques do disco. 

Baseado na exploração de sonoridades extremas, Corpse Sonata, Vol. II se configura como um projeto sônico que funde, com destreza, trap cru, dubstep, phonk e programações rítmicas boom bap. Mas não só. O disco, em si, ganha destaque pela sua aparência cinematográfica e por ter, em sua essência, o horrorcore como base de sua desenvoltura. Um disco surpreendente do início ao fim que tira, com facilidade, o ouvinte do controle de sua própria lucidez.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5fcXDVfNTH0Ion4wEooE5K

Soundcloud: https://soundcloud.com/modul8-702279756

Instagram: https://www.instagram.com/curbstep

YouTube: https://youtube.com/channel/UCT3Ud0xSxzyg853uSSt1dIA

Site Oficial: https://curbstep.com