É preciso pontuar, de antemão, que, a partir de uma introdução calcada em uma via unilateral, aqui compreendendo a instrumentação apenas da guitarra, a canção é capaz de assumir uma delicadeza curiosamente melancólica respaldada por uma postura inebriantemente soturna, o que, por si só, já causa certo quê de interesse no espectador. Ganhando toques de sensualidade com a entrada do beat, a faixa tem esse viés enaltecido perante a forma como Jennifer Silva interpreta os primeiros sinais de enredo lírico.
Por entre falsetes de aparência escorregadia, a cantora extravasa seu tom levemente fanhoso enquanto deixa as emoções tomarem conta de si. E aqui, o veludo se confunde com a sombra, com o torpor e com traços de uma melancolia gradativamente crescente. A partir das veias teatrais perceptíveis em cada pronúncia da cantora, esse toque de maciez acaba entrando em conflito direto com os ímpetos místicos que a estrutura da obra vai presenciando.
Sem perder a sua essência delicada, mas também não se desvencilhando da morfina que tanto rege o seu andamento rítmico-melódico, a faixa, mesmo se apoiando no simples, transforma o seu contexto em algo cinemático, teatral e dramático. Em Cruel Mistress, portanto, o que acontece é a exploração do poder, o desejo, a sedução e o toque pontiagudo do karma.
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