O que chama a atenção é a densidade. É o grave. É o introspectivo se unindo à melancolia de uma forma pungente e com conotações cheias de uma espécie de desesperança pegajosa. A partir do oud dominado por Rihab Azar, essa atmosfera ganha vida em meio a um tom monocromaticamente cinza, enaltecendo o sombrio que domina esse ecossistema frio. Amplificando a sua entonação entristecida, faíscas de uma interação sintônica da tremulação melódica entre o violoncelo de Ben Bolt-Martin e o violino de Andrew Chung tornam Questions uma obra de caráter introspectivo intenso em meio ao seu ecossistema soturno. Um ecossistema que ainda observa requintes de dramaticidade entregues a partir das frases monossilábicas e pontualmente explosivas da bateria de Firas Hassan.
Com um ar ainda mais intenso e profundo, a canção não traz o drama apenas como tempero. Ela o faz assumir a forma da sua própria essência, um detalhe facilmente perceptível a partir das pausas entre as notas do oud e do silêncio que nelas se formam. Sorrateira, ela faz com que o violino e o violoncelo se unam como uma espécie de brisa consciente e lacrimal, uma postura que esconde, ou melhor, tenta esconder uma angústia latente presente em cada acorde. Capaz de ser ainda mais melancólica que a faixa anterior, The Pull Of Time se destaca por trazer movimentos que incitam a percepção de uma curiosa e, talvez, despropositada sensualidade que torna a sua atmosfera substancialmente intrigante. Uma narrativa que segue uma harmonia linear, mas cujas texturas exploradas tornam a vivência auditiva algo que transcende os limites do som.
Aqui, o padrão muda. Não é mais o oud o elemento instrumental responsável por puxar a introdução. Tal tarefa recai sobre a figura do violoncelo, fator que torna o amanhecer mais consistente e com uma densidade palpável capaz de favorecer a aquisição de uma sensibilidade inerente ao caos e à ideia de vulnerabilidade. Dando embasamento a essa sensibilidade, o violino entra com uma sobreposição que faz o ouvinte dialogar com súbitos de estridência e um drama que permeia, com liberdade, a base sonora. Quando o oud entra em cena acompanhado de um fator percussivo de tonalidade opaca semelhante à darbuka, o ecossistema de Biography Of A Bubble adquire dinamismo e fluidez, mas sem perder a sua essência introspectiva e cheia de suspense.
A forma como o oud, o violino e a bateria se combinam faz com que a sonoridade introdutória assuma a forma de uma espécie curiosa de valsa. Uma dança com flertes em relação ao flamenco. Com direito a uma saliência que sugere o macio, esse movimento surte em um efeito dramatúrgico chamativo por fornecer ímpetos teatrais à cena, o que acaba entregando a Indulgence uma fluidez densa e de brisas melancólicas, mas que se vale, principalmente, do seu aspecto indiscutivelmente dançante.
Do jeito que Dandelion é apresentado ao ouvinte, Rihab Azar merece os parabéns. Afinal, ao demonstrar intensa sensibilidade, a ousadia em colocar o oud como o instrumento-protagonista constrói e realça um aspecto regional que torna todas as narrativas de sua track list verdadeiras obras que contam histórias cheias de densidade e profundidade sensorial.
Colocando a atmosfera árabe em evidência, o disco, um produto inteiramente instrumental, consegue fazer com que todas as suas oito faixas transpirem identidades próprias e bastante marcantes. Mesmo que apresente seus quatro primeiros títulos como aqueles que destacam esses quesitos com mais afinco, Dandelion é um produto que, em sua inteira forma, traz as raízes da música tradicional da região de Swana, ou, como é conhecida, a porção de países que moldam o Oriente Médio.
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