Ela vem sob uma forma aveludada, doce, aromática e até mesmo sensual. Chamando a atenção por desenvolver um senso de libido despropositado, a faixa se embebe de um dulçor sedutor em meio a um beat que lhe proporciona a aquisição de um bom toque de fluidez. Misturando nuances R&Bs com brisas do trap, Glass Butterfly se configura como uma obra instrumental em que o torpor se torna uma ação inevitável e o aconchego, algo consequente.
Diferente da obra anterior, o ambiente aqui proposto é embebido em um groove saliente e afiado ofertado através de um baixo colocado com uma devida visibilidade. Nesse ínterim, o dulçor agudo, mas controlado, do teclado, dá sua contribuição em meio a pingos que exortam uma delicadeza cristalina, a qual é amplificada pelos sobrevoos aveludados e vivos do saxofone. Delicada e sensualizante, Cali é uma faixa envolvente narrada por uma voz masculina afinada, aveludada e embebida em uma interpretação lírica cuidadosamente provocante.
Por entre sonares ondulantes e opacos desenvolvidos pelo sintetizador durante a introdução, a canção mergulha em uma paisagem de estrutura pulsante, mas não bruta ou mesmo crua. Aqui, a construção rítmica se dá de forma serena a ponto de entrar em sintonia com a energia proposta pelas sonoridades exploradas pelo sintetizador. A partir daí, é interessante perceber como Trade It All consegue favorecer o desenho de uma ambiência urbana, mas ausente de qualquer densidade e tensão advindas de um sombrio suburbano.
De beat sincopado marcante, algo que se evidencia desde o processo introdutório imediato da presente música, a atmosfera desenvolvida propõe, assim como nas faixas anteriores, pinceladas de uma paisagem estilística rappeada. Mais precisamente, aqui fica clara a defesa da disseminação da cultura hip hop muito além do que meramente o rap. Assim, Inspiration atrai a atenção do espectador por meio de sua linha lírica sintética, sua base rítmica amaciada e pulsante e sua energia urbana cativante.
Agraciada pela presença de um coro soul durante seu despertar, algo que acontece, inclusive, com um ar curiosamente natalino em virtude da fusão de sonares levemente tilintantes, é interessante e até mesmo agradável a forma como a obra propõe a introspecção a partir de uma atmosfera sensorialmente aveludada, delicada e, até mesmo, entorpecente. Serena, mas ainda assim atraente, The Right Way continua a escalada do álbum em meio à sua proposta introspectivamente aconchegante.
Não existem meios de descrever o álbum a não ser começando com a palavra delicadeza. Sua fragilidade estético-estrutural é, definitivamente, a sua principal marca sensorial. Bem construído e desenvolvido, o disco chama a atenção por conseguir fazer com que o hip hop e o rap sejam mostrados de forma não verbal, apenas através do som. Do pulso. Da emoção.
Entre ambientes que permitem um mergulho profundo em ambiências de cunho sensual, bem como outras de caráter levemente denso e dramático, o álbum se destaca pelos seus veludos e pelas suas texturas envolventes. Cheio de fluidez e agraciado por experimentos sintéticos que engrandecem suas camadas harmônicas, questões muito bem vislumbradas durante suas cinco primeiras faixas, o álbum consegue combinar torpor, envolvência e experimentalismo com grande charme e envolvência.
Necessário pontuar, também, que a união de Tranzformer e Big O, em meio à iniciativa de unir a costa oeste com o Reino Unido, faz com que Dichotomy seja capaz de se misturar, inclusive, com brisas R&Bs não apenas envolventes, mas marcantes e deleitosas. É assim que o álbum se permite ser, integralmente, uma obra de grande apreço por mostrar, acima de tudo, a versatilidade do experimentalismo em prol da música urbana.
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