Direto de Nova Iorque, Almost Nothing lança halfen, seu novo EP

O som que puxa a sua introdução parece vir do ukulelê. Doce, sereno e com uma delicadeza bastante particular, o instrumento, apesar da sua natureza singela e reconfortante, serve como uma exposição sensorialmente contrária. Afinal, o que se tem diante da composição é a observância de uma postura cabisbaixa e um comportamento demasiadamente introspectivo. Melancólica, sad! se apropria de sons digitais para ampliar seu senso de intimismo, o que acaba contribuindo para a amplitude de tal tristeza. Inclusive, a interpretação lírica assumida pela cantora diante de seu timbre frágil embebido em autotune, assume de igual forma esse viés tristonho e desmotivado.

É verdade que o beat é um elemento que, prontamente, é percebido pelo ouvinte diante do processo introdutória em andamento. Ainda assim, a fragilidade com que é inserido no ambiente faz com que se tenha a impressão de certa continuidade no viés entristecido adotado na obra anterior. Felizmente, porém, essa impressão se esvai conforme a cantora entra em cena oferecendo um compasso lírico sincopado apoiado por um beat de igual performance. Com direito a inclinações verbo-interpretativas baseadas em falsetes, talk to you é uma composição experimental em que, ao usufruir do som ambiente do canto dos pássaros, permite que o beat evolua para um contexto que flerta com a paisagem do reggaeton.

Ela, definitivamente, se vale pela característica da introspecção. Porém, diferente daquela apresentada em sad!, aqui o ouvinte não se depara com a melancolia ou com certo grau de dramaticidade. Em verdade, é interessante perceber que a presente composição acaba ofertando conforto e aconchego por meio do sonar digitalizado por ela desenvolvido, o que sugere certo quê de bem-estar. Ofertando generosas doses de torpor em razão dos efeitos vocais adotados, let it é uma faixa que combina um clima completamente etéreo com uma levada rítmica que se inclina ao trip hop.

Mantendo e destacando a introspecção como uma marca da sonoridade do Almost Nothing, 4ever as one nasce com uma sonoridade sintética curiosa e agradavelmente aromática. Marcada por uma espécie de sensualidade despropositada presente em meio às linhas líricas, a canção não se intimida em oferecer bojudas doses de torpor em meio a uma atmosfera ainda mais etérea que aquela fornecida em na canção anterior. O que mais chama a atenção na presente faixa, porém, é a forma como se fundem as nuances da introspecção, do transcendental e do torpor. Tudo de uma forma envolvente e denotativamente embriagante.

Eis aqui um EP capaz de causar sensações variadas no espectador. Em meio a uma postura inquestionavelmente moldada pela introspecção, halfen permite que o ouvinte viva momentos de bem-estar, mas também de intensos torpores, agradáveis melancolias e momentos em que o sublime se eleva a um ponto quase palpável.

Ainda que o material mostre que as suas quatro primeiras faixas trazem tais características de forma mais marcante, também a intimismo-sincopada-embriagante h8 missing you é capaz de alcançar tal feito, mesmo que a um nível levemente inferior. Inclusive, a faixa reforça a existência pungente da melancolia nos diálogos lírico-estruturais de halfen, um EP mergulhado em um universo sônico que transforma o art-pop em um dark-pop que se comunica expansivamente com a eletrônica, o downtempo e o minimalismo.

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