DJ nova-iorquina Adai Song lança The Bloom Project, seu novo álbum

Não é possível se desvencilhar da ampla camada de sonoridades e elementos que visam a conquista de um toque de excentricidade. Afinal, a canção tem seu início calcado por uma melodia um tanto dissonante, mas de forma propositada, enquanto o enredo lírico é cuidadosamente entoado por uma voz feminina aguda e açucarada. Sob uma postura interessantemente introspectiva, A Lost Singer, na companhia de Yili Cow, faz com que o ouvinte se perca diante de sua estética aveludada e fresca, mas, acima de tudo, se embriague perante o idioma mandarim.

A introspecção, aqui, encontra outro patamar sensorial. Afinal, aqui não existe, necessariamente, uma maciez padrão. Com um frescor entorpecente e uma postura delicadamente sussurrante que beira o esvoaçante por parte da cantora, a faixa, invariavelmente, explora uma atmosfera noturna envolvente e, de certa forma, até mesmo vibrante, mesmo diante de um afofar penetrante. Não à toa que Night Shanghai, por meio de sua sonoridade levemente tremulante em meio à sua identidade sintética, hipnotiza o ouvinte e, inclusive, o surpreende com uma quebra rítmica agora sincopada e levemente trepidante.

Depois que um sonar adocicadamente ácido preenche os instantes iniciais imediatos da canção, de forma a trazer a percepção da adoção do wurlitzer, a faixa, de maneira bastante audaciosa e charmosa, explora uma ambiência retro que rememora a estética de canções cinquentistas. Isso acontece especialmente pela maneira com que a cantora apresenta seu timbre até a execução da segunda estrofe lírica da obra, momento em que sua voz é ouvida cristalinamente e em primeiro plano. Mantendo a mistura idiomática entre o inglês e o mandarim, Make Way se evidencia como uma canção dançante e com um bom equilíbrio entre o pop e uma paisagem sônica eletrônica.

Depois que menções rítmicas inerentes à paisagem do rap são apresentadas diante de seu processo introdutório, a canção envolve o espectador em meio à inserção de uma instrumentação oriental penetrante. Ainda assim, o que faz de I, I Want ser uma canção tão especial não é, necessariamente, apenas e tão somente esse detalhe. Quanto mais amadurece, mais ela vai exortando camadas melódicas orgânico-sintéticas que escancaram um veludo que beira o R&B. Com direito a versos líricos estruturados de forma lexicalmente rappeados, a canção, na companhia irreverente de Lionzed, explora uma boa noção de movimento, ao mesmo tempo em que se permite experimentar texturas de um pop moderno.

The Bloom Project, para dizer um mínimo, é um disco que encanta, do começo ao fim. Porém, não um encantamento inerente a uma espécie de beleza dineyresca, pura, intocada. Mas uma beleza relacionada à capacidade de fazer funcionar a fusão de diversos gêneros com lirismos entoados perante uma arquitetura bilíngue. Isso o torna, inclusive, um produto cheio de audácia e, consequentemente, apelo lexicalmente internacional.

Trazendo uma série de convidados que vão de nomes como Yili Cow a Siyi Chen, o disco se destaca por trazer, em meio à sua estrutura, o pop como base, mas também o rap como um tempero que levanta toda a sua desenvoltura rítmica. O R&B, por sua vez, chega para enaltecer o veludo e a sensualidade, dando ao disco um frescor envolvente e cheio de sedução.

Letradas perante o vaivém entre inglês e mandarim, as faixas dispostas nesse disco ainda trazem consigo a união de sonoridades tipicamente orientais, como é o caso daquelas extraídas do ehru, com outras padrões do espectro da indústria musical. Ainda que tais pontos sejam mais visíveis perante as quatro primeiras músicas da track list, The Bloom Project é, por completo, uma viagem sônica capaz de entreter e entorpecer o ouvinte com seu charme autêntico e a sua irreverência inquestionável.

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