Dyads | Wingfish lança álbum que captura a energia crua do som ao vivo

Ainda que a obra se inicie com frases melódicas suspirantes e minimamente reverberantes, o que salta aos poros sensoriais do ouvinte é um interessante sinal nostálgico que se sobressai enquanto o som da guitarra perambula pelo ambiente. Delicada, mas agraciada por contornos de um grave que contrastam bem com as brisas de torpor até então difundidas, Gentle Ally ganha precisão rítmica ao mesmo tempo em que exorta uma natureza crua indulgente. Como a segunda maior canção do álbum em relação à duração, a faixa, com seus mais de sete minutos, é agraciada por um composto lírico cuja interpretação despeja melancolia e uma pitada marcante de saudosismo. 

Aqui o que acontece é a construção de um ambiente solitário, mas preenchido por um sabor de base azeda que vende uma afinação melódica a partir de seu caráter distorcido. Enquanto a guitarra e o tilintar da cúpula do prato de condução formam uma atmosfera sombria e soturna com andamento lento a ponto de induzir o espectador à percepção da influência do doom metal em seu desenho estético-estrutural, Sacred Place desemboca em um ponto em que ritmo e melodia se unem em um contexto sincopado e bruto que, curiosamente, alcança o contágio. Seguindo a mesma linha da obra anterior no que diz respeito à harmonia de aspecto linear, a faixa, com seus pouco mais de oito minutos, pode soar embriagante e extensamente orgânica, mas o que faz dela uma obra ultrajante é o seu formato de looping.

Enquanto a guitarra assume a dianteira melódica com um riff áspero, mas sonoro e envolvente, a bateria entra em cena sob um desenho rítmico requebrado. A partir daí, o ouvinte encontra bons sinais de dinamismo e contornos de uma fluidez suficiente para que o ouvinte se sinta em movimento. De refrão entorpecente, Blown – 2025 Version consegue combinar uma sensualidade embrionária com uma dramaticidade fecundada pela forma como o vocalista interpreta os versos líricos. 

É curioso como a afinação da guitarra, juntamente com o movimento por ela sugerido, consegue fazer o ouvinte perceber similaridades entre a presente melodia e aquela alcançada por Dean DeLeo na introdução de Plush, single do Stone Temple Pilots. Ao contrário dessa, porém, I Know Everything – Live 24 alcança um apelo popular ainda maior em razão da sua paisagem denotativamente chiclete obtida através da agudez da guitarra. Swingada e sensual em sua essência, a faixa consegue combinar insinuações de torpor e um comportamento que beira o provocativo. Introspectiva, ela se destaca pela ausência de elementos propriamente rítmicos, depositando, na guitarra, a responsabilidade pelos campos da melodia, da harmonia e do próprio ritmo.

Definitivamente, o que o Wingfish fez em Dyads é apresentar um contexto sonoro cru na sua significância mais léxica possível. Entre afinações graves e agudas, sabores azedos e doces, estruturas sensuais e chicletes no que tange ao apelo radiofônico, o álbum se apresenta principalmente a partir da brutalidade da sua paisagem sonora.

Não, não há agressão ou qualquer questão associada à intolerância. O cru aqui entra como constatação de uma proposital ausência de lapidação fina, culminando em um som de natureza incontestavelmente orgânica.

Ainda que harmonicamente linear, Dyads vai além de suas quatro primeiras faixas como as de principal destaque e abrange outros títulos como If You Say So – Live 24 com sua melancolia de base acústica e Someone Else – Live 24 com a sua pegada embriagante e nostálgica-swingada. É assim que o álbum funde gravações ao vivo e novas faixas captadas em estúdio com a mesma energia crua das in loco.

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