O que acontece já nos primeiros instantes sonoros é a percepção de que a composição é detentora de uma profunda capacidade de imersão. Por meio de uma melodia aveludada cuidadosamente vivida pelo saxofone diante de suas modulações de caráter sensorial suavemente melancólica, ela envolve o espectador em um ambiente introspectivo seriamente sentimental. Com o auxílio da linha lírica ainda, a qual é vivida por uma voz feminina firme e suavemente grave, o espectador entorpece diante da camada lamentadora que se forma. Escancarando a influência do jazz durante esse recorte, Dr. Curt Conners surpreende o espectador ao migrar para um instante de ritmo pautado em uma tradicional métrica trap, com direito a beats precisos e chimbais trepidantemente secos. Fechando essa conta, ainda é preciso citar uma base vocal ululante e brevemente fantasmagórica que dá alicerce para que o vocalista destrinche, com sua voz grave, uma pronúncia ondulante de viés hipnótico.
Existe uma espécie de charme imersivo e introspectivo durante os primeiros instantes sonoros. Aqui, porém, não há um toque ligeiramente expansivo, sensual ou mesmo estridente como aconteceu no título anterior, afinal, quem puxa o presente amanhecer é o baixo e um teclado de nuances bastante soturnas. Assim que o vocal masculino se apresenta tal como se estivesse recepcionando o ouvinte nesse novo ecossistema, a canção flui para um instante em que o sonar de violinos, de conotação sintética, oferece uma valsa de energia cabisbaixa, melancólica e cuidadosamente sofredora. De beat mais denso e agraciada por uma textura áspera insistente, Relativity é uma obra mais focada em textura do que propriamente em qualquer outro aspecto estrutural.
Entre o burburinho de vozes ao fundo, a canção vai nascendo a partir da combinação de sons agudos que são capazes de fornecer a percepção de uma textura levemente ríspida. De pulsos firmes, mas sem necessariamente trazer densidade, a composição chama a atenção do espectador por sugerir uma conotação sensorial hipnótica e alucinante. Se desenvolvendo a tal ponto que sua esfera rítmica se torna cuidadosamente sincopada, This Is Cooking se consagra como uma obra instrumental de arquitetura sonoro-sensorial denotativamente embriagante.
O hipnotismo se apresenta como a verdadeira base sensorial da composição graças à natureza de sua sonoridade sintética. Levemente ululante, ela faz com que o ouvinte não somente se introspecte, mas seja contaminado por um estado entorpecente pegajoso e imparável. Mesmo diante de bumbos duros, chimbais secos e ligeiramente sincopados, além de um escopo lírico narrado pela voz grave do vocalista, a morfina é algo inevitável de se vivenciar. De caráter sonoro fantasmagórico em razão da natureza de sua melodia sintética, Old Burner Phones se destaca por trazer consigo um curioso e inesperado toque espacial em sua textura sônica.
Definitiva e incontestavelmente, quanto mais se ouve EFF.SEE.DEE.IYEE, mais se percebe que ele é um material focado em texturas e, consequentemente, vivências sensoriais. Entre o intimismo, o veludo, o áspero e surpreendentes superfícies requintadas, o material leva o ouvinte ao soturno e ao vibrante com bastante versatilidade.
Ainda que os aspectos da melancolia e do hipnotismo saltem tanto aos ouvidos quanto aos poros emocionais do espectador, o álbum é respaldado por pulsos rítmicos firmes e chimbais, de textura seca e comportamento trepidante, que fundem o trap à sua receita estrutural. Com direito a sons inesperados, como o do saxofone e do violino, o material destaca sua ânsia pela exploração de ambiências sensitivas, as quais ainda oferecem vislumbres fantasmagóricos e espaciais marcantes.
Com espontaneidade e um caráter cru com traços orgânicos latentes observados também nas faixas Ibuprofen e Make It Real, EFF.SEE.DEE.IYEE conseguiu atingir seu principal objetivo: o de trazer um som sem filtro, bruto e indisculpavelmente sem polidez. Um trabalho em que o lo-fi assume uma postura desafiante.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/0mkw0zDFbcWjmaXdJgda1v
Instagram: https://www.instagram.com/the_black.plague.doctors/
Bandcamp: https://theblackplaguedoctors.bandcamp.com/
Soundcloud: https://on.soundcloud.com/RoAzP1HgfuiiFoIGe2

