A sanfona é o instrumento que brilha e faz brilhar, de igual forma, a paisagem introdutória. Com sua postura e movimento sorridentes, o instrumento entrega uma sensualidade envolvente e convidativa que despeja, pelo ambiente, um ânimo irresistível e viciante retirado do chamamé. Agraciada também pela presença do teclado, elemento que entrega uma amplitude de malemolência ao ecossistema, a faixa passa a contar, a partir dele, com novos sabores relacionados ao palato do dulçor.
Agora, o que de fato atrai, em definitivo, a atenção do ouvinte, é o timbre rouco e levemente rasgado do vocalista e a forma como ele interpreta o conteúdo lírico. Misturando um tom curiosamente lúdico com inclinações de deboche e cinismo, ele, em meio à adoção do espanhol como idioma do enredo, mergulha o ouvinte em um universo de referências rítmico-sonoras sul-americanas. Ainda que com aparência processada, essa voz é um ingrediente imprescindível no elo entre ouvinte e a própria composição.

Embebida em percussões orgânicas que se desenvolvem diante de um compasso que mistura as métricas 3/4 e 6/8, a canção consegue fazer com que o ouvinte seja capturado por energias de influência dançante por meio de seus pulsos rítmicos bem marcados. Aromática e com um refrão enérgico em razão da exaltação lírica, El Charrúa é uma obra em que o Nanan celebra a identidade uruguaia por meio de algo que soa como uma conversa intimista com o sol.
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