Elements | Evil Gima lança EP com sonoridade sombria e ruidosa

De início, parece não haver sequer um sinal de som. O silêncio, portanto, molda a paisagem inicial, intrigando o espectador. No entanto, de maneira gradativa e tímida, um detalhe estridente começa a surgir, quebrando com o estado de torpor. Entre um vaivém ora oco, ora de aparência nítida, essa textura acaba atingindo seu ápice em meio a uma sonoridade que não apenas beira, mas flerta gentilmente com o sombrio. Com direito a pulsos rítmicos ecoantes e a uma oferta de sensorialidade associada à solidão, Enthalpy destaca o caos de uma inicial dissonância, enquanto faz com que o ouvinte mergulhe em um mundo de vulnerabilidade e insegurança.

Ao contrário do que se vivenciou na composição anterior, aqui a atmosfera já é apresentada em meio a silhuetas sônicas que trazem consigo o assombro, o suspense, o tenso. Levando o espectador a um ecossistema sombrio de nuances trevosas, a canção consegue causar o medo diante da pura escuridão. De fato, não há o concreto, o tátil, mas o que Boling Point Transfusion faz é colocar o espectador em um cenário tão denso, nebuloso e pegajoso como o umbral. Afinal, seus sons semelhantes a urros e sussurros estridentes dão a impressão de almas penadas pedindo por socorro.

A estridência já é ofertada em seu ápice. A partir de sua postura altiva, os sensos de urgência e imediatismo moldam o ecossistema de forma a criar um princípio de tensão na sensorialidade adquirida pelo ouvinte. De natureza ácida, a sonoridade que molda a paisagem da canção traz consigo a ideia de um quê incendiário, mas em combustão gradativa. O curioso, nesse processo, é perceber que, mesmo diante de um princípio de agressividade, a sonoridade de Nuclear Charge chega a flertar, mesmo que timidamente, com a temática do synth-pop. Perigosa em sua máxima essência, a faixa defende claramente a ideia do iminente, do inevitável.

O cenário é agraciado pela adoção do efeito fade in. Tal como uma espécie de looping sonoro-narrativo, a presente canção apresenta a mesma estrutura introdutória de Enthalpy. De despertar sonoro gradativo, mas sem esconder a sua essência estridente e ácida, a faixa torna o sombrio o seu porto-seguro. A sua zona de conforto. Sensorialmente densa e tensa, a faixa ainda chama a atenção por vivenciar uma exploração perante o sombrio perante uma lente que beira o gutural. Quando a sonoridade atinge seu ápice de presença, ela se torna linear e sequencial, mas não diminui o proposital incômodo oferecido ao espectador. Exthalpy é uma faixa que, ainda, se destaca por trazer o torpor em meio a uma espécie de caos dramático e sombrio.

Elements é um EP que, simplesmente, dá asas à imaginação. Porém, não por uma ótica disneyresca, colorida e alegre. Aqui, existe o denso, o tenso. O caos. Aqui, as sombras sussurram e o silêncio murmura. A escuridão se apresenta como o cenário majoritário de todas as suas narrativas sônicas.

É justamente perante elas que o ouvinte tem de lidar com as suas próprias fragilidades. A insegurança, o medo, o senso de desproteção. A solidão como prova da fraqueza associada à percepção de confiança. Ainda que as lágrimas cheguem a escorrer em determinados momentos, o drama que Elements oferece é passageiro e quase ludibriante. Eis aqui um EP em que o ácido, o sintético e o lo-fi se unem em uma crueza estético-estrutural sombria e ruidosa.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/4fzYkZTK0dg3nm4QNa3kew

Site Oficial: https://www.evilgima.comhttps://open.spotify.com/artist/4fzYkZTK0dg3nm4QNa3kew

Bandcamp: https://firefireredstardown.bandcamp.com/

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