ELEVATION | Margot Zoé lança álbum conceitual que caminha pelos temas da liberdade, sobrevivência e amizade

É sabido que o piano, por si só, tem a capacidade de construir, simultaneamente, uma gama vasta de sensações e paisagens imagéticas. Aqui, com sua delicadeza levemente doce, o instrumento envolve o ouvinte em meio a vislumbres de tensão e melancolia. Explorando o drama associado com um embrionário sinal de caos, principalmente por meio de suas pausas propositais, Fu Inle acaba adquirindo a forma de um prelúdio por meio de uma silhueta convidativa e esotérica conforme evolui a sua desenvoltura estrutural de caráter minimalista.

Aqui, o ouvinte é convidado a caminhar por um terreno ondulante de inclinações curiosamente borbulhantes. Chegando ao ponto de entorpecer o espectador em razão de sua sequencial repetição das frases melódicas introdutórias, a faixa faz com que o ouvinte seja surpreendido pela presença de uma voz feminina firme, mas, ao mesmo tempo, aveludada e delicada, na ânsia de dar vida ao escopo lírico. Na posse de Margot Zoé, esse timbre se percebe dividindo igual espaço com uma bateria de levada acústica, intimista e charmosa em razão da sua desenvoltura a partir da vassourinha. Intimista e profundamente delicada, Hazel é possuinte de boas e bojudas frases groovadas assinadas pelo baixo, ao passo em que a sua base estético-estrutural bebe do requinte do jazz.

Ainda que mude o tom, o piano se apresenta em cena realizando uma divisão de trincas de notas de maneira a fazer com que o ouvinte se entorpeça de imediato. É a partir desse elemento que, rapidamente, a bateria entra em cena de forma a sugerir um andamento rítmico propositadamente descompassado e dissincrônico em relação à melodia que se anuncia. De grooves pronunciados de forma rápida, a canção se vale, principalmente, da cadência estruturada por Margot para conseguir oferecer um mínimo de fluidez ao espectador. A partir dela, é capaz de se esquecer, mesmo que brevemente, da natureza truncada da esfera rítmico-melódica de Blood, uma faixa de conotação estrutural caótica.

Um sonar ondulante e repetitivo se apresenta como o responsável por puxar a introdução da presente composição. Diante da sobreposição vocal e de determinadas pronúncias líricas feitas a partir de falsetes muito bem executados, a canção, munida naquela mesma e sequencial sonoridade, consegue envolver o espectador em meio a um universo sensorial de caráter onírico. Introspectiva e intrigante, a faixa, curiosamente, consegue fazer com que a audiência se veja no fundo do mar observando tudo perante uma lente visual e auditiva opaca e entorpecente. Where?, diante desse arranjo estético-estrutural, acaba soando como uma obra que dialoga sobre as noções de pertencimento por uma lógica audaciosamente alucinante.

Pode até ser que, em um primeiro momento, ELEVATION pareça ser um álbum puramente instrumental calcado na figura ilustre do piano. Porém, ao passo que a sequência de faixas vai sendo executada, o ouvinte percebe um avanço notável no desenvolvimento da paisagem sônica totalizante a ser apresentada pelo material. A partir daí, ele não apenas denuncia seu charme e requinte associado ao jazz, mas destaca a sua natureza sensorial experimental.

Entre morfinas, torpores, introspecções, dramas e vislumbres de uma sensualidade embrionária, questões mais perceptíveis durante a execução de suas quatro primeiras faixas, o material vai evidenciando sua natureza conceitual conforme permite que o ouvinte perceba a sua incursão no campo do inconsciente. É a partir desse instante que se entende que ELEVATION é, em sua máxima essência, um álbum de texturas charmosas e hipnóticas que se embrenham em meio de temáticas líricas como liberdade, sobrevivência e amizade.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/4NPbde4WTDPMy0BMXb5stp

Site Oficial: https://www.margotsannier.com