Gal Hecht, pianista de jazz e compositor, anuncia, com orgulho, o lançamento de Seger-Shmeger, seu single de estreia. Escrita durante o início do período de isolamento social em Israel para barrar a disseminação da Covid-19, a música, inicialmente, foi pensada para fazer parte da Nu-Ma, banda israelense de funk fusion de Hecht. Porém, ela se tornou tão poderosa que ganhou arranjos focados tanto em apresentações intimistas quanto para outras mais bem produzidas.
Sobre a música, Hecht conversou com a Roadie Music. No bate-papo, o músico, além de dissecar a composição, refletiu sobre seus medos e suas experiências durante o confinamento em Israel. Descubra a história completa de Seger-Shmeger na entrevista completa disponível a seguir:
Roadie Music: Seu novo single é conhecido por misturar diferentes gêneros musicais, como funk e jazz com uma energia altiva. Como é a receptividade desse tipo de música em Israel, uma vez que o país tem um cenário musical marcado pelas suas próprias tradições?
Gal Hecht: Essa é uma boa questão! Poderia descrever a cena jazz de Israel como um enigma. Afinal, por um lado o país tem sido o berço de músicos proeminentes do gênero, tais como Anat Cohen, Avishai Cohen, Shai Maestro e Omer Avital, para citar alguns. É quase como uma fábrica de talentos clássicos de jazz. No entanto, do outro espectro, tenho que ser honesto: a demanda local de jazz não é lá essas coisas. Existem apenas alguns lugares dedicados ao estilo.
É fascinante perceber como uma cena tão grande imergiu em um lugar onde o público geral não é profundamente conectado com o gênero. Dito isso, tenho notado que as audiências por aqui tendem a ser mais receptivas a fusões e estilos mais elétricos. Quando toquei Seger-Shmeger no seu arranjo original, não encontrei resistência! Na verdade, ela tem sido muito bem recebida! Então, acima de tudo, posso dizer que o público de Israel é aberto a novas experiências sônicas, dependendo, claro, de como você apresenta a sua música.
RM: Atualmente, tocar essa música ao vivo te machuca de alguma forma?
GH: Enquanto eu, de fato, reconheço que as pessoas estão mais inclinadas às produções polidas de estúdio em relação às gravações cruas em estilo ao vivo, ainda vejo certo charme na qualidade austera da minha música. Em uma era em que a IA está fazendo seu caminho no mundo das artes, acredito que podemos começar a ver uma mudança naquilo que a audiência espera dos artistas. Conforme essa tecnologia tem feito cada vez mais a função humana, o valor do artista pode estar mais presente em sua evolução e na sua jornada pessoal do que em apresentar um produto final completamente lapidado.
Existe algo excitante em testemunhar o progresso através de diferentes tipos de produção. Eu realmente planejo revisitar e recriar essas músicas algum dia, mas não enxergo a possibilidade de executá-las ao vivo. Acredito que o artista tem o dever de dividir seu trabalho sem se envergonhar dele e seguir em frente, independente daquilo que lançaram no passado.
RM: Apesar dessa música em especial, o confinamento serviu como uma espécie de combustível em relação ao seu processo criativo, focando, aqui, na composição de eventuais outras músicas?
GH: Na verdade, não. Acho que essa é a única faixa que compus durante esse período! Admito, porém, que o confinamento me deu muito tempo para editar e arranjar minhas músicas. Além disso, dediquei muitas horas praticando piano. Ainda, acima de tudo, o confinamento não foi um período particularmente divertido para mim e sou grato de tê-lo superado! Dito isso, realmente aprecio o fato de que a frustração que senti naquele período me serviu de combustível para compor Seger-Shmeger.
RM: Como você descreve seu primeiro contato com o funk?
GH: Eu não mergulho profundamente no funk puro, além daquele de James Brown, é claro. Em vez disso, estava mais exposto aos elementos do funk em outros gêneros. A primeira banda realmente funkeada para a qual fui apresentado foi Red Hot Chili Peppers e, como vários jovens que o descobriram, fiquei extasiado! Ao mesmo tempo, estava escutando muito jazz, mas nunca me senti na necessidade de me dedicar a apenas um gênero.
Eventualmente, voltava minha atenção ao Red Hot Chili Peppers e, sem dúvida, o mais influente som funk depois deles, para mim, foi Snarky Puppy. Apesar de eles não serem estritamente uma banda funk, a música deles é cheia de elementos do gênero, algo que pode ser observado especialmente em títulos como Lingus, Shofukan e A Thing Of Gold. Snarky Puppy foi a banda que, inclusive, me fez querer me tornar músico e eu serei eternamente grato pela inspiração que me deram durante a minha própria jornada!
RM: Você é descrito como pianista, tecladista, compositor e, inclusive, educador. Em qual dessas funções você se sente mais livre para se expressar?
GH: Para mim, não há necessidade de escolher! Elas são simplesmente diferentes facetas de uma mesma coisa. É apenas uma questão de onde você escolhe depositar sua energia e seu tempo. Vejo todas essas aptidões – pianista, tecladista, compositor e educador – como posições profundamente conectadas.
Como músico improvisador, você essencialmente compõe em tempo real. E quando se está compondo, você está improvisando com a luxúria de poder revisitar e refinar as suas ideias. Ambos os processos se alimentam e se fortalecem mutuamente!
Mesmo quando estou praticando, estou aprendendo sobre mim. E quando estou ensinando os outros, estou fazendo a mesma coisa. Posso dizer que todas essas facetas são ferramentas de autoconhecimento. Independente se são uma bênção ou um caminho, isso depende da forma como são encaradas, sinto genuinamente que eu preciso de todas elas para poder me expressar!
RM: O single Seger-Shmeger é muito sensual e groovado. É possível de se perceber, facilmente, o swing fluindo livremente pela atmosfera. Essa intenção foi proposital para que você se sentisse, ao menos na música, livre e independente durante o confinamento?
GH: Essa é uma interpretação interessante! Na verdade, não arranjei a presente versão durante o confinamento. Eu só a compus para minha banda Nu-Ma e, na edição inicial, não estão inclusos os elementos que trazem swing. Dito isso, não estou descartando a ideia de da sua interpretação tocar em algo que poderia estar acontecendo, naquele tempo, no meu subconsciente. É perfeitamente possível que um desejo por liberdade e independência influenciou na forma como eu a arranjei.
Ademais, existe uma razão prática para os elementos que trazem swing: eu estava criando o arranjo para uma banda grande e queria explorar frases swingadas. Foi realmente uma boa oportunidade para experimentar e trazer novas texturas à composição.
RM: Mesmo soando colorida e vívida, posso sentir toques de agonia na forma como o time de metais se desenvolve. Qual foi seu maior medo durante esse período e como você o enfrentou?
GH: Para ser honesto, meu maior medo durante aquele período foi a ideia de que eu não poderia experimentar a vida como músico. O isolamento realmente me forçou a confrontar a instabilidade financeira que vem com essa escolha de profissão. Enquanto várias áreas foram afetadas, senti que os músicos foram os mais atingidos e comecei a me questionar se estava realmente disposto a viver os riscos dessa função, não só musicalmente, mas, também, do ponto de vista monetário.
De diversas formas, esse single foi a minha maneira de dispersar todos esses medos, uma espécie de chamado para mim mesmo. O ‘Shm’ em Shmeger é, na verdade, uma brincadeira colocada sobre a palavra Seger, que significa isolamento em hebraico. É como se eu estivesse dizendo: ‘sim, sim, ouvi falar do confinamento, mas não vou deixar que ele me enfraqueça. Irei superá-lo e seguirei em frente!’. Foi a minha maneira de declamar um senso de liberdade e determinação através da música!
RM: O instrumental de jazz é algo bem complexo. Esse gênero pede por diversas camadas para criar uma paisagem sonora perfeita. Porém, na sua opinião, qual o instrumento que você consegue extrair o máximo de emoção?
GH: Essa é uma pergunta difícil! Se tivesse que escolher, diria que o instrumento mais capaz de expressar emoções é a voz. Quando se pensa sobre isso, muitos instrumentistas dos anos dourados do jazz desenvolveram técnicas de imitar a expressão vocal, porque a voz é a forma mais direta e natural de comunicação musical. Diferente de muitos instrumentos, ela – a voz – não se limita a tons ou mecanismos. É profundamente pessoal e incrivelmente expressiva.
Por exemplo, quando ouço uma linha principal cantada por um coral, ela me hipnotiza muito mais fácil do que se tivesse sido interpretada pelo piano, por exemplo. Há algo na voz que vai além das notas instrumentais. Um grande exemplo disso é a versão que Saje fez para Dusk Baby, música de autoria de Gerald Clayton. A emoção que ele traz em sua interpretação lírica adiciona uma camada completamente nova ao arranjo original.
RM: Hoje, aproximadamente três anos depois do fim do isolamento, como se descreveria? Sente que os fantasmas daquele período ainda vivem dentro de você?
GH: De alguma forma, nosso passado está sempre conosco. É realmente sobre como escolhemos superá-lo. Todos nós trazemos coisas de nossas experiências passadas, porque o ontem inevitavelmente molda o presente e o futuro. É como o tempo funciona. Então, sim, ainda lido com aqueles fantasmas.
Inclusive, ainda existem momentos em que acordo e me questiono se sou apto à vida de músico. Uma coisa que realmente me ajuda a lidar com essa dúvida é algo que ouvi em uma masterclass. Infelizmente, porém, não lembro o nome do artista, mas ele disse: ‘todos os dias eu escolho ser músico!’.
Aquilo ficou zunindo no meu ouvido. Me lembrou, inclusive, que nossos medos e traumas não só desaparecem, como também são influenciados pelas nossas escolhas. E todos os dias, temos a chance de fazer escolhas. Para mim, isso é poderoso! Todo o dia é uma nova oportunidade de dizer ‘sim’ para essa jornada!
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