Em parceria, Massimo Donelli e Paolo Rossi lançam FAMOYO, álbum que une inteligência artificial, música e poesia

Não é apenas o caráter atmosférico que chama a atenção. Desde o seu início, a canção convida o ouvinte a mergulhar em meio a uma sonoridade regida por uma harmonia valsante muito bem elaborada pelos violinos em exercício.  Exaltando nuances de um frescor quase entorpecente, esse momento sônico sugere um despertar entorpecente curiosamente barrado por um som sintético de conotação áspera que logo se percebe no cenário. Se fundindo às nuances eruditas, esse sonar entrega uma textura rascante a Guarda Dentro, uma faixa liricamente dominada por uma voz masculina melodiosa que transcorre por interpretações verbais de cunho sussurrante, se mostra sincopada e envolta no conceito progressivo.

Chamando a atenção do ouvinte desde seu início imediato a partir da reprodução fidedigna dos batimentos cardíacos, a faixa tem seu nascimento apresentado tal como o alvorecer do dia. Os primeiros sinais do sol rompendo a escuridão da noite. O crepúsculo nascente. Proporcionado a partir de uma linha lírica vocálica melismática surpreendentemente enraizada nas modulações padrão do maqam, tal despertar traz consigo a ideia de gratidão, de ovação. De um curioso toque de misticismo. Contando com a presença de elementos percussivos que parecem ser o atabaque e o bongô, a faixa acaba sendo agraciada por uma consistente base rítmica envolta em um extasiante alicerce atmosférico. Diante disso, Il Fachiro – Gestation And Birth tem, em si, uma identidade tribal que enaltece o torpor e o tom de consagração.

Após o violino puxar a introdução a partir de um rompante contínuo e tremulante que, uma vez mais, traz consigo influências da regionalidade do maqam, uma voz masculina levemente rouca é percebida efetuando balbuciares onomatopaicos que imitam os sons percussivos. Se movendo perante uma base não apenas atmosférica, mas também fresca, hipnotizante e de nuances etéreas, esse timbre flui do ligeiramente grave ao expansivo e convidativamente aberto de forma a fazer de Il Fachiro – Potere Del Corpo uma obra de camadas sensuais provocantes e irresistíveis que se evidenciam conforme a maturidade estético-estrutural vai sendo alcançada.

Nesse novo universo, o chimbal vem sincopado em meio a uma identidade seca, a guitarra se anuncia perante rompantes aveludados e provocantes, e os violinos processam uma grandeza harmônica que torna a introdução um processo que beira o épico. Respaldada por uma linha lírica inicialmente entoada por um coro de vozes robusto, Il Fachiro – L’essenza é, ainda, agraciada pela presença de um piano que insere graça e uma agradável noção de movimento por meio de suas teclas de notas equilibradamente agudas. Contando com uma interpretação lírica de caráter sensual em razão da execução de pronúncias levemente suspirantes, a faixa é regida por uma energia motivacional e estimulante que se constrói com o auxílio de uma base rítmica singela, mas sincopada.

É difícil trabalhar composições com diferentes embasamentos estruturais e combiná-las em um mesmo trabalho. Isso, porém, parece não amedrontar a figura de nomes como Massimo Donelli e Paolo Rossi. Afinal, no comando de FAMOYO, a dupla alcançou um patamar de experimentalismo, no mínimo, invejável.

Tal percepção se fortalece ao percorrer as 11 faixas que compõem a track list do disco. Nesse trajeto, o ouvinte se depara com cenários regidos por roupagens progressivas, com nuances épicas, influências eruditas e inclinações consistentes para com o universo do maqam, o que o coloca na seara da world music. Entre coros harmonicamente grandiosos e interações de diferentes instrumentos percussivos, violinos e violoncelos, o material se apresenta como uma verdadeira viagem musical.

Ainda que essas percepções estejam muito bem definidas e identificáveis no decorrer das quatro primeiras músicas da track list, outras obras merecem a devida atenção. Il Monaco – Toujours, com a sua sensualidade fomentada pela excentricidade da sanfona; e Lo Yogi – Filo d’acciaio, com sua mistura tribal com nuances de maqam; destacam a sinergia entre os compositores. E ressalta: a inteligência artificial, aqui, anda lado a lado com a poesia e a musicalidade em sua forma pura.

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