Pode até assustar em um primeiro momento, mas após alguns pulsos firmes que se fundem imediatamente a sons de texturas ásperas e ríspidas, a introdução vai encaminhando o ouvinte para um ambiente que inspira delicadeza, dulçor e uma mistura entre o torpor e o onírico. O curioso, nesse ínterim, é perceber a presença do baixo na base melódica, local em que explora densidade na sua significância mais léxica a partir de um groove maciço que rompe, momentaneamente, com a brisa letárgica proporcionada por Be A Seeker, Believer. Com direito a versos líricos que mais soam como um experimentalismo vocal do que propriamente a união da pronúncia de palavras, a faixa destaca um timbre feminino de menções encorpadas e graves que permeiam um universo enredado no aspecto estético-estrutural cinemático.
O beat entra com notável ênfase. Preciso, firme e levemente denso, ele opera de forma a entregar firmeza e uma embrionária noção de cadência cíclica à canção que se encontra nos seus momentos de desenvolvimento iniciais. Diante de um sonar sintético denotativamente encorpado que soa como uma representação fidedigna do groove do baixo, a faixa, invariavelmente, começa a transpirar um estímulo dançante bastante atraente e até mesmo viciante. Quando menos se espera, uma voz masculina de timbre afinado e intermediário surge pronunciando versos curtos e repetitivos que, de certa forma, destacam Your Facts My Facts, o título da presente obra. De brisas alucinantes e um hipnotismo não necessariamente associado ao torpor, a faixa ainda ousa ao caminhar perante uma base rítmica pautada na estrutura da house music.
Fugindo do viés eletrônico apresentado com destaque na faixa anterior, a presente composição mergulha profundamente em um ambiente que sugere, além do simples torpor, um aspecto transcendental evidente diante de suas inclinações ambientes e atmosféricas. Surpreendentemente, porém, sons agudos aparentemente provenientes da flauta, em contato com elevações vocais que sugerem um breve encorpamento gutural, fazem com que a faixa-título explore, com sabedoria, a influência da música tradicional japonesa em sua estrutura. Como um convite à introspecção que direciona o ouvinte a um processo de autoconhecimento inevitável, a obra, diante do protagonismo da contribuição da agudez adocicada da shakuhachi, sugere uma leveza difícil de não se permitir envolver.
A dramaticidade e a densidade firmam um importante pacto durante a introdução da composição. Enquanto o violoncelo e o violino conversam por meio de lágrimas e posturas que sugerem o arrependimento em sua forma léxica, o piano ocupa a base melódica com uma agudez límpida que induz a uma espécie de melancolia consciente. Com direito a momentos em que a voz de Sienná se funde somente aos dedilhares do piano, Aenaria sugere um aspecto de mantra e meditação que rouba, de imediato, os sentidos do ouvinte. É exatamente isso que favorece a percepção de uma profundidade sensorial evidente em relação ao aspecto rítmico-melódico da obra.
Explorar talvez seja a palavra que define o presente material. Afinal, tendo ela como mote, Sienná consegue fazer, de Ema, um disco que transita por ambientes sonoros completamente diferentes entre si, mas que, de uma forma bastante audaciosa, encontram simetria e um frágil elo harmônico.
Se valendo de posturas associadas à introspecção e energias que vão do torpor à reflexão, o disco chama a atenção não apenas por trazer ambientes sonoros eletrônicos dialogando com nuances ambientes. Especial e principalmente, Ema se destaca por misturar menções à música tradicional japonesa com o cinemático e o glitch, evidenciando a sua versatilidade. Com nove faixas e destacando também 369 (Miroku) e The Majestic por trazerem densidade e o sombrio, Ema se trata de um produto indiscutivelmente imersivo.
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Site Oficial: https://www.sienna-web.com
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