Decididamente, a maneira com que a composição se inicia é respaldada por um orgânico e atraente senso de contágio. Proporcionado a partir da guitarra, esse detalhe sensorial se percebe diante de uma movimentação melódica amaciada com direito a toques de uma sensualidade delicadamente provocante. Introspectiva e capaz de ambientar o ouvinte em meio a um cenário interiorano, a faixa ganha certo grau de consistência conforme presencia a entrada da bateria e a consequente construção da esfera rítmica. Se tornando firme e cuidadosamente sincopada, Sweetheart Candy Loving é embebida em um enredo lírico de natureza crua graças ao timbre levemente rouco exposto por Eoin Shannon. Harmonicamente linear, é até possível de se perceber certa familiaridade com o som e a atmosfera de Summertime Blues, composição de Eddie Cochran, destacando uma identidade folkeada com brisas de blues.
O sonar agudo e dedilhante aparentemente providenciado pelo teclado sugere a construção de um ambiente intimista e profundamente dramático. Enraizada na presença de chiados que lhe conferem uma tomada crua que, consequentemente, a associa com a atmosfera do lo-fi, a canção tem, em si, uma performance completamente pautada no senso de melancolia. Perceptível principalmente na forma como o vocalista interpreta o enredo lírico, esse detalhe sensitivo ganha contornos de uma dramaticidade visceral graças ao andamento choroso assumido pela bateria. Delicada e suavemente aromática, Game Night In Hell se destaca pela sua ampla dose de torpor disseminada por meio de uma harmonia de natureza linear.
Introspectiva, mas bastante aromática, a canção tem seu início pautado na criação de uma melodia reconfortante e aconchegante por parte do piano. Tal como se fosse capaz de transpirar ternura e compaixão, essa sonoridade traz consigo um senso de cuidado interessante que captura a atenção do espectador. Inquestionavelmente introspectiva diante de suas generosas notas de crueza, Bartender é marcada pela presença de uma voz feminina aguda e firme contrastando com o timbre rouco e, aqui, desesperançoso de Shannon. Marcada por uma estética blues que rememora a paisagem sônica do auge dos anos 60, a canção tem, em si, uma identidade sofrida e, portanto, melancólica que bebe da essência estética da forma mais pura desse gênero musical. Completando essa veia densamente intimista, está o saxofone de Hugo Lee, que, com delicadeza, grita e insere seu toque aveludado lacrimal diante dessa que é uma canção completamente construída em cima de sensos pegajosamente lamuriantes.
Saindo, felizmente, daquela tristeza pegajosa ofertada diante da cenografia da faixa anterior, o presente produto confere certo requinte no que tange à sua estrutura. Sincopada e de sonoridade mais aberta, a faixa é agraciada por instantes de uma sensualidade ausente de libido, mas marcada por um viés comportamental provocativo. Ainda que curta em sua duração, sendo a segunda menor faixa do repertório do disco, Puppetmaster traz harmonias brisantes providenciadas pela agudez delicadamente ácida do hammond e um andamento rítmico trotante que auxilia na aquisição de um gracioso senso de movimento.
Every Drunk’s Gotta Story não pode ser entendido como um álbum comum. Afinal, ao mergulhar de cabeça na construção de ambientes sônicos bautados na raiz clássica do blues, ele experimenta, se aventura e explora toda a denotação da palavra sentimento. Afinal, o que marca a sua totalidade é a sinceridade, a honestidade, a pungência e, acima de tudo, a naturalidade com que explora as emoções.
Melancólico e, portanto, triste, a maior parte do tempo, o disco também é marcado por momentos que sugerem uma brisa de alegria e outros que, ainda, marcam a presença de contornos sincopados e sensuais. De estrutura macia e envolvente, o disco é agraciado por uma instrumentação adequada para conseguir o feito de desfilar os sentimentos de uma forma verdadeira que não soe apelativa.
É por essas razões que as quatro primeiras faixas da track list se destacam em relação às demais. Com mais clareza, elas destacam enfaticamente cada uma das menções até aqui indicadas. Ainda assim, é certo que, dentro de uma sequência de 13 títulos, existem outros produtos que merecem atenção.
Exemplos disso são faixas como a introspectivo-sensual Free My Soul; a pegajosamente romântica Jezebel, a qual ainda dá ênfase ao emprego da vassourinha pelo baterista, o que acaba projetando uma textura ainda mais delicada; Love Isn’t For Everybody, com a presença marcante do saxofone e uma estrutura blues completamente padrão; e a sensual, mas harmonicamente linear Pour Me Some Unconditional Love. Elas auxiliam Every Drunk’s Gotta Story a destacar suas temáticas sobre amor, perda e redenção.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7njGUl8GeClZ8XGu0qD3fk

