A forma como as notas do piano são extraídas confere uma delicadeza tamanha que faz com que o ouvinte seja imediatamente capturado por uma leveza que o faz se sentir flutuar. Curiosamente, dentro desse aspecto, não é possível fugir dos respingos tristes e melancólicos existentes em cada esquina sonora minimalista. Esboçando uma espécie de introspecção cabisbaixa, o instrumento evidencia o drama, mas, especialmente, uma densa camada de lamento que vem por uma brisa de temperatura desconfortavelmente gélida. Nesse ínterim, o ouvinte se surpreende ao perceber, gradativamente, a presença de uma sonoridade tímida retirada do violão. Cada vez mais, a textura levemente seca do instrumento elabora uma movimentação fragilmente amaciada que ao mesmo tempo em que chega a dar fôlego às lágrimas, também é capaz de suavizá-las. Diante desse ecossistema, Paragon se percebe como uma obra espectral que ganha contornos vocálicos de nuances celestiais que entorpecem o ouvinte diante de sua energia devidamente transcendental.
Não é apenas brisante, ainda que essa seja uma experiência sensorial que rapidamente salte aos poros do espectador. De base atmosférica a um ponto em que chega a flertar com silhuetas oníricas, a canção surpreende por sair do puramente sintético e se enlaçar na presença de dedilhares cuidadosos pelas cordas da guitarra. Obtendo dela uma sonoridade aguda e agradavelmente frágil, a faixa passa a ser graciosamente incentivada a assumir uma postura contemplativa diante de uma textura que sugere o bem-estar em sua forma pura. Eis que, surpreendentemente, a camada lírica ganha vida por meio de uma voz feminina de teor suavemente açucarado. Na posse de Zoe Konez, ela é usada de forma a combinar nuances introspectivas com um viés convidativamente reflexivo que torna I Don’t Want To Be Lonely Anymore uma faixa doce e respaldada por uma camada aconchegantemente esotérica.
O etéreo é uma característica apresentada imediatamente à introdução da composição. Diante de uma breve estrutura melódica minimalista perpetrada pelo violão, a faixa vai amadurecendo as suas silhuetas espirituosas de forma gradativa enquanto o frescor e a máxima significância do conceito de fragilidade vão recepcionando o espectador. De identidade lírica sussurrante, o que amplifica a percepção de uma natureza celestial, Easy To Learn bebe de uma linearidade melódica que não interfere na viagem sônico-sensorial vivida pelo ouvinte. Esvoaçante em sua máxima essência, eis aqui uma obra que soa como um verdadeiro mantra. O som mais léxico do intimismo.
Um uivo vocal sequencial rapidamente se funde a uma camada sonora sintética que não apenas cria, mas, ao mesmo tempo, apresenta, amadurece e fortalece a existência de uma energia mística que paira livremente pelo ambiente. De natureza extasiante, mas se destacando especialmente pela sua postura hipnótica e indubitavelmente contemplativa, a faixa se envolve em meio a um estímulo entorpecente que captura a sensorialidade do ouvinte de maneira consistente. Curiosamente, no instante em que o primeiro verso se anuncia, This Utopia se consagra como uma obra macia em que o violão dá delicadeza e uma textura suavemente lúcida que garante um singelo senso de movimento. Nesse ínterim, também a forma como Zoe vive o enredo lírico configura um estado de completo êxtase a essa obra que é, ainda, respaldada por uma camada ululante de backing vocals que torna o refrão algo viciante.
Descrever Everything’s Fine pode ser uma tarefa penosa e difícil. Afinal, é complicado não cair em lugares-comuns ao tentar decifrar um álbum cheio de camadas. Ainda assim, eis aqui um conteúdo que vale, definitivamente, a pena ser escutado. Vale pelas suas texturas, pelas suas energias e pelas suas roupagens sonoras. Com uma delicadeza transcendental, eis aqui um produto em que o espiritual encontra o terreno por meio de um alicerce completamente atmosférico e etéreo.
Frágil em sua máxima essência, o disco se consagra pela exploração suave e singela de cada um de seus instrumentos. Seja ele o sintetizador, o violão, a guitarra ou os elementos que sugerem uma suave conotação rítmica, a delicadeza é extraída de seu som. E isso é encantador, porque, com um cuidado quase sobrehumano, se conquistam melodias que se consagram em meio a uma natureza espirituosa, tocante e emotiva.
Mesmo que esses detalhes estejam bem presentes no decorrer de suas primeiras quatro faixas, o disco guarda outras grandes surpresas. Time For Tea se destaca por uma breve sensualidade que confere aos ventos do bem-estar uma oportunidade de se deliciar nas pequenas coisas; e Intimate ganha a atenção do ouvinte pela secura tensa com que o violão sugere o pensar. Diante disso, Everything’s Fine, com lançamento marcado para 12 de junho, adquire a pose de um material emocionalmente profundo que traz Zoe na sua mais intensa exploração sentimental.
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