Um sonar agudo de natureza sintética vai se fazendo cada vez mais presente de forma gradativa. Aumentando a sua proeminência diante do nascimento melódico da composição, ele rapidamente passa a ser acompanhado por uma levada rítmica swingada e por um ânimo naturalmente estimulante. Nesse aspecto, é até interessante perceber a existência de flertes estruturais para com a latinidade híbrida da salsa e do merengue, o que torna a atmosfera ainda mais convidativa, além de dançante. Recheada de um groove encorpado desenhado pelo baixo na base sonora, Unsurvivable é narrada por uma voz masculina afinada em seu tom agudo e aveludado que confere à atmosfera uma gratidão e uma exaltação pela vida.
Aqui a composição possui um nascimento proporcionado por uma estrutura diferenciada. A partir dos batuques opacos típicos do bongô em união à textura levemente áspera do shaker, a introdução transpira uma identidade sensual envolvente e contagiante. Naturalmente swingada e agraciada por um rompante de vivacidade providenciado pela união de instrumentos de sopro com a guitarra elétrica, a canção segue com a sua exploração de uma atmosfera latina especialmente no que se refere ao âmbito rítmico. Afinal, é nele que, muito além, de influências do merengue e da salsa cubanos, há a existência de um cha-cha-chá contemporâneo, o que torna a identidade da obra ainda mais atraente. Dançante em razão da movimentação da guitarra, Let’s Be Free traz consigo inclinações para um jazz latino moderno com texturas ácidas que relembram a paisagem do electro.
Diante desse novo universo, o ouvinte se depara, com mais facilidade, com um escopo rítmico preciso e pulsante que se aventura pela exploração de texturas secas a partir da desenvoltura do chimbal. Diante de tal compasso, a composição já consegue transpirar, com uma nitidez superior àquela de Let’s Be Free, o cha-cha-chá como elemento principal. Inclusive, Late Night Games apresenta um contexto histórico-sonoro curioso. Por meio de seu ritmo sincopado de natureza afro-cubana e pela presença de um trompete saliente, o son cubano se pronuncia como um tempero picante bastante marcante identificado, também, pela alternância de trechos instrumentais com outros cantados. Introspectiva, sussurrante e sensual de uma forma branda, a presente faixa também ganha destaque pela sua base atmosférica de nuances entorpecentes em razão da desenvoltura do teclado.
Ela é aromática, sensual e agraciada por uma textura espacial leve proclamada pela pronúncia das notas do teclado. Combinando, de forma sinérgica, os pulsos rítmicos em 4×4 com um baixo groovado e pulsante, a canção chega até a se aproximar da bachata, criando um cenário estilístico bastante regional e excêntrico. Com traços inegavelmente românticos, Take Advantage Of Me traz consigo inclinações atmosféricas que culminam com percepções de um torpor inegável intensificado por traços de um jazz latino amaciado, além de bossa nova contemporânea.
É verdade que Fabricated Worlds possui uma track list vasta, a qual compreende um total de nada menos que 16 títulos. Porém, a profundidade e a intensidade com que, no comando de Kevin Smeltzer, ele mergulha no universo da música latina, faz com que sua identidade seja destrinchada com visceralidade já com base em suas quatro primeiras músicas.
Ao ouvi-las, o espectador não apenas se delicia com a maciez, com o dulçor açucarado e com um romantismo viciante. Ele consegue caminhar pela origem de ritmos latinos de forma a identificar, de forma indireta, a história e a herança cultural de lugares que compartilham traços de um passado semelhante. Da bossa nova, passando pelo cha-cha-chá, além da influência da bossa nova e da bachata, elas evidenciam o son cubano como um elemento que denota uma identidade extremamente forte.
Ainda assim, é possível dizer que Virtual Love, com o protagonismo de um teclado que recria a exata natureza sonora do hammond ao reproduzir um som agudo e ácido; Imposter, com sua introdução rítmica gradativa que rememora a estética de uma marcha fúnebre; e Alone, com a sua melancolia introspectiva e entorpecente; trazem boas contribuições a Fabricated Worlds. Com elas na conta, o disco destaca a sua capacidade de transformar mortalidade, identidade e o despertar emocional em um rico arranjo multicultural.
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