O som que recepciona o ouvinte pode até causar arrepios. Contudo, esses são estímulos motivados simplesmente pela tensão e pela expectativa intrigante em que o ouvinte é submetido. Diante de uma estética curiosamente digital, mas com uma sensualidade que chama a atenção a partir do emprego de um chiado chacoalhante produzindo uma textura levemente áspera, Ghost Of You In Me é marcada por um intimismo provocante não no sentido sexual, mas sim na ideia de fomento da ansiedade frente ao desconhecido. Entre guitarras aéreas, inserções de wah-wahs e uma voz masculina agridoce vinda na posse de Alan Mair, a faixa tem um quê sinistro e sorrateiro que, definitivamente, atiça a curiosidade da audiência.
Enquanto a distorção parece reverberar livremente por um ambiente ainda inóspito, a guitarra surge em meio a riffs suspirantes que dão à introdução um clima de suspense marcante. Felizmente, com a presença do teclado se apoderando da base harmônica, não apenas o veludo, mas também o dulçor e ligeiras notas de torpor passam a reger a sensibilidade do espectador. Agraciada por um baixo que lhe entrega corpo e uma boa dose de opulência, a faixa consegue suavizar a morfina, mas mantém a sensualidade no seu nível de maciez padrão. Introspectiva e harmonicamente linear, Nothing Is Impossible traz consigo um formato de rock alternativo que muito bebe da influência do U2 com o acréscimo de obter pitadas incisivas de new wave em sua estrutura.
Ela pode até ser intimista, mas diferente das outras composições, essa obra em especial nasce já adornada com uma aspereza azeda e aérea que conduz o ouvinte à sensibilidade do sombrio associado à tensão e à densidade. Intrigante pela forma com que conduz a união da guitarra, do baixo, do sintetizador e de aparentes elementos percussivos, a faixa chama a atenção por conseguir capturar sinais de agonia e desespero sem exageros ou dramaticidade. Há consciência e, portanto, lucidez, mas esse senso de ausência de fuga e de proteção é um ponto forte de seu conteúdo. Combinando a aspereza da guitarra com uma atmosfera que induz às ideias de angústia e culpa, How Could I Let This Happen, na forma de música de trabalho de FIELD OF ONE, convida o espectador a explorar os momentos definitivos que moldam a vida, como os arrependimentos, as escolhas e os pontos de virada que nem sempre são compreendidos.
FIELD OF ONE chega como um disco que foge um pouco daquilo que se espera de um produto tido como expoente do rock alternativo. Afinal, ainda que de fato o disco traga esse subgênero como a base da sua estruturação, o que se percebe com mais proeminência é um caráter experimental e de infusão. Aqui, não há apenas uma paisagem sônica, mas várias que se convergem na obtenção de um ambiente cinemático e de forte teor reflexivo.
Não só as duas primeiras faixas e a composição de trabalho destacam essa ideia, mas também outros importantes momentos confirmam essa afirmação. The Devil’s Porridge, com seu teor soturno diante da interação das guitarras solo e base em meio a uma atmosfera assustadora; On This Earth, regada a reverb vocal e uma sensualidade bluesada; e Side By Side, com a sua estética oitentista radiofônica e swingada, são bons exemplos disso. Com elas na conta, FIELD OF ONE destaca suas imersões new waves em meio a atmosferas de sugestões reflexivas.
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