É bastante interessante a proposta introdutória da canção. Afinal, ela, ao mesmo tempo, é capaz de inferir uma ideia de suspense envolta em sensualidade com um toque de sinistro. Para os adeptos ao hard rock clássico, a sonoridade extraída do teclado, bem como a forma como ela se movimenta, ainda consegue rememorar a melodia criada por Richie Sambora na introdução de Dead Or Alive, single de Bon Jovi. Envolta na companhia de ligeiras estridências providenciadas pelos golpes no prato de condução, o que, consequentemente, surte na criação dos primeiros sinais racionais de um andamento rítmico, Sprawling se permite mergulhar em um universo de viés estrutural sujo, ácido e curiosamente denso. Importante ressaltar, aqui, que tanto o timbre quanto as pronúncias adotadas pelo vocalista cooperam com sensos de introspecção e torpor, deixando a obra completamente inebriante.
O chimbal entra seco, mas com uma sonoridade de conotação interessantemente sintética. Ainda assim, é interessante perceber que tal elemento percussivo, além de ser responsável por ilustrar as noções rítmicas, já vem maduro no que diz respeito à exortação da cadência sobre a qual a música deve caminhar. Novamente explodindo em uma sonoridade ácida e suja, qualidades adquiridas especialmente em virtude da afinação da distorção da guitarra, a presente composição se permite transpirar uma nuance soturna pungente que chama a atenção do ouvinte em virtude de sua consequente profundidade estética. Pincelada por sons agudos de natureza sintética, Justified é embebida em uma densidade bastante dramática que, de uma forma bastante interessante, mistura torpor, sensualidade, introspecção e melancolia.
O toque sintético é, aqui, o protagonista sonoro da introdução. De natureza delicadamente tilintante acompanhado do compasso do chimbal, esse escopo melódico inicial é o responsável por levar o ouvinte para uma vivência sensorial explosiva que se deleita em flertes com o épico. Ainda que regido por camadas harmônicas providenciadas pelo teclado, a música é, em sua essência, comandada por uma estrutura linear capaz de embriagar o espectador com notável facilidade. O interessante é que, em Helpless, as sobreposições vocais dão ao seu enredo lírico uma conotação generosamente mais dramática do que aquela existente nos títulos anteriores. Com uma adoção maior de sonoridades eletrônicas, as quais auxiliam na ampliação do caráter sensorial, a obra alcança um patamar de visceralidade rascante bastante áspero que, definitivamente, transcende os limites do som.
Não que ela seja de assustar. Porém, seu andamento inicial profundamente lento induz uma percepção intimista incômoda. Afinal, é como se houvesse a elucidação de uma solidão em pleno cenário sombrio e obscuro. Um lugar em que a ausência de luz não apenas estimule, mas escancare as mais densas fragilidades do indivíduo. Difícil, em Hindrance, não dizer que o doom é o seu principal denominador. Ele dá uma conotação soturna lexicalmente pegajosa à sua atmosfera. Inclusive, quanto mais a obra se desenvolve, mais esse caráter soturno assume uma identidade transcendental graças ao dulçor hipnótico adquirido pelo teclado e pela mistura de exaltação, gratidão e morfina exaltadas pela interpretação lírica.
Forgiveness é um álbum claramente não indicado aos ouvintes emocionalmente instáveis ou frágeis. Afinal, ele é um conteúdo inteiramente envolto em paisagens melancólicas, de um céu cinza monocromático cujas emoções não são mais do que a paralisia frente à dor, à saudade e à mais pura embriaguez.
Ainda que esse detalhe seja mais visível no decorrer de seus quatro primeiros títulos, o álbum é, por completo, uma viagem sônica que faz com que o ouvinte se sinta uma verdadeira marionete de seus próprios sofrimentos. Nesse sentido, é bastante interessante observar a forma como o Blunt Blade criou uma estrutura sonora capaz de extravasar essas sensorialidades cenográfico-verbais.
Do rock alternativo, passando pelo post-grunge, por indícios de noise rock, mas também por densas camadas de rock industrial e doom metal, o material transpira uma pungência intimista tão pegajosa que é como se o material fosse o resultado da união de nomes como Joy Division, The Smiths, Soundgarden, New Order e Rammstein. O que chama mais a atenção é que essa miscelânea de sons, no presente material, funcionou.
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