Furtiva | Frezya lança single cinemático de estreia na companhia de LPSV

O som estridente do trompete se anuncia. Ecoando pelo ambiente ermo, o instrumento é colocado em cena de maneira solitária. Com uma movimentação amaciada que sugere uma identidade curiosamente mexicana, o instrumento, por si só, acaba desencadeando na aquisição de sensorialidades que vão da sensualidade à tensão com notáveis fluidez e versatilidade.

Nesse ínterim, enquanto o instrumento parece se vangloriar de seu protagonismo absoluto e incontestável, uma camada sônica diferenciada é colocada na base melódica. De natureza sintética, esse sonar induz o espectador a lidar diretamente com estímulos sombrios, nebulosos e obscuros que o fazem despertar seus próprios sensos inerentes à insegurança e à vulnerabilidade. Sem qualquer menção de dramaticidade, no entanto, a composição vai construindo seu terreno por meio de um alicerce firme e imagético calcado exclusivamente em uma ambiência de caráter indubitavelmente épico e cinemático.

Introspectiva e se aventurando na exploração de sons não somente ambientes, mas também percussivos, como é o caso do repique, a faixa surpreende por se desprender de sua natureza inicial intimista e assumir, quase que de maneira súbita, uma postura expansiva. Isso acontece em razão da desenvoltura do corpo rítmico, o qual se mostra não apenas sincopado, mas responsável pela crescente energética da obra, tal como em um drop da música eletrônica.

Quando atinge seu ápice, ao invés do silêncio que antecipa uma explosão estimulantemente dançante, a canção se depara, enfim, com o início da desenvoltura lírica. Exercida por uma voz feminina equilibrada entre dulçor e agudez, ela acaba se deleitando em interpretações verbais apoiadas em uma sensualidade levemente provocante. Como uma curiosa espécie de vinheta, esse instante cantado flui para um ambiente narrado por uma voz masculina afinada e de caráter contagiante.

Eis então que, sem qualquer sinal de medo ou timidez, a canção permite que seus elementos percussivos assumam um protagonismo maciço em sua estrutura. Além de desencadear em um instante de intensa pressão e cadência, eles entregam força, movimento e colocam Furtiva no rol de um experimentalismo sônico admirável. 

Afinal, diante de tal desenvoltura, a obra não apenas lida com bases pesadas do phonk, mas coloca o ouvinte em contato com uma identidade sul-africana inerente ao amapiano que lhe confere um som atmosférico penetrante e hipnótico. É isso o que a torna uma obra com aroma de modernidade, mas, ao mesmo tempo, fincada em raízes estilísticas muito bem definidas que destacam a harmônica e promissora parceria entre Frezya e LPSV.

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