Fusion Of Colours | Em novo álbum, Shu Lee desenha diversos gêneros e linguagens

Ela é marcada pela crueza, mas isso não a torna bruta ou densa. O que acontece em I Am A Pyx é a exploração de uma estrutura orgânica marcada pela introspecção, mas que, também, permite ao ouvinte a elucidação de um contexto intimista e de ligeiras melancolias sobrevoando sua paisagem. Sensorialidades exaltadas principalmente em razão da estética sonora ofertada pela guitarra, elas encontram certo quê de psicodelia em meio à contribuição adocicadamente ácida do teclado. Ainda assim, a faixa chama a atenção, também, pela forma com que Shu Lee se apresenta em cena. Adornado por um timbre áspero em virtude do uso de edições digitais, o timbre do cantor acaba entregando ainda mais crueza ao alicerce sonoro-sensorial da obra.

Saindo por completo da atmosfera pseudo-rap vivenciada diante da canção anterior, o que acontece na presente composição é a surpreendente receptividade em meio a uma ambiência dançante. De baixo bem audível diante de sua postura saliente e de encorpamento suavemente azedo, a faixa traz um composto rítmico pulsante e fresco que tangencia as delimitações estruturais da house music. Acompanhado de sons de leve estridência rompendo o torpor estruturado entre o groove e o beat, a faixa ainda ousa uma experimentação funkeada assim que o primeiro verso começa a ser construído. Enquanto Lee se pronuncia apoiado em sua voz agora limpa, o swing domina a cena e hipnotiza o espectador com sua sensualidade interessantemente rígida. Swagatam Namaste, importante mencionar, ainda consegue introduzir a mesma menção psicodélica de I Am A Pyx sem interferir no swing acentuado da presente composição.

Puxada pelo bumbo de maneira sequencial e pausada, a faixa segue seu curso através de uma sonoridade sintética aguda que não esconde sua identidade new wave. Ainda que diante de um compasso lento, a faixa permite que o ouvinte identifique, já durante sua introdução, o diálogo existente entre baixo, beat e sintetizador. Essa sintonia consegue fazer com que a atmosfera seja tomada por uma vivência pautada em uma interessante camada de torpor, mas que, de maneira positiva, não se vende de maneira pegajosa. Densa e crua perante o escopo sensório-cenográfico proposto durante o primeiro verso, Magpie On The Roof é marcada por um excessivo toque orgânico pretendido pelo próprio Lee.

Novamente o funk entra em cena perante um desenvolvimento groovado saliente e provocante. Tendo o baixo necessariamente como protagonista, a música ainda permite a percepção de novos elementos que contribuem com a construção do senso de swing. O cowbell e sua sonoridade aguda e opaca é um elemento importante em relação a essa paisagem, deixando o contexto rítmico ainda mais sincopado e a experiência sonora deveras atraente. Curiosamente, porém, Frolicking, a segunda obra mais curta do disco, se nutre de um enredo rítmico linear que, graças ao andamento lírico, não prejudica a percepção de fluidez. 

Realmente, Fusion Of Colours é um álbum que supera as expectativas. Desenhado de maneira inquestionável e indiscutivelmente experimental, ele é um álbum domado pela versatilidade e que, portanto, não se amedronta pelo fato de os limites induzirem até onde a criatividade pode ir. No domínio de Shu Lee, o presente produto oferece as mais diversas paisagens, sejam elas no que tange estrutura, estética ou, mesmo, sensorialidade.

Do funk à house music, o material traz momentos de torpor como, também, é capaz de ofertar o dançante, o atraente, mas também o melancólico e o pungente. E isso fica bem claro diante das quatro primeiras músicas que moldam sua sequência de faixas. Ainda assim, a vivência do espectador é garantida no que se refere ao inimaginável e ao surpreendente. Não existe prerrogativa para o novo, assim como não é possível impor limite a quem, aqui, se envolveu profundamente com a construção de cada aspecto estrutural. É isso que faz de Fusion Of Colours um disco digno de audição.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5kc484AJIKSRHIuXCtL6rT

YouTube: https://www.youtube.com/@shu.lee.artist