Seu início é marcado por uma exploração sensorial que beira o épico. Tal como uma espécie de recepção calorosa, a sonoridade dos metais, apesar de sintética, dá a ideia de algo grandioso. Existe, em sua estrutura melódica, inclusive, nuances capazes de caminhar pelo fresco e pelo dramático ao mesmo tempo. Assim que o beat entra em cena sincronicamente à linha lírica, Gametime Title Track garante, para si, um compasso sensual, bem marcado e curiosamente brando. Combinado com o timbre levemente grave de Brandon Mitchell, a faixa consegue sugerir diferentes texturas sonoras enquanto, conjunturalmente, amadurece como uma obra baseada no ritmo sincopado do trap.
É interessante perceber que, através da sonoridade sintética que puxa a introdução, a canção consegue, facilmente, criar e disseminar uma atmosfera de caráter introspectivo capaz de surtir em efeitos táteis macios que levam ao puro aconchego. Flertando, a partir daí, com um lapso de êxtase de bem-estar, a faixa surpreende por, com o auxílio da interpretação lírica assumida pelo rapper, garantir uma experiência sensorial dramática que pende ao melancólico. Assim, Dirty Dishes acaba transpirando certos quês de biografia, o que leva a uma saliente pungência e visceralidade no que tange o campo emocional.
Aveludada e doce. Hipnotizante e entorpecente. Sensual e provocante. Delicada. A maneira com que a nova obra explora seu curioso toque de crueza leva o ouvinte a mergulhar em um gostoso espectro nostálgico cheio de aroma romântico. Entre os chiados que estalam espaçadamente pelo enredo sonoro, a faixa comunica a interação do lo-fi com uma cadência lírica sincopada que enaltece o seu suave caráter bruto. Pulsante, mas fluida e capaz também de ser precisa no que concerne seu ritmo, Sugar, quanto mais se desenvolve, mais propõe ao ouvinte o experienciar do torpor.
Ao som doce do piano presente entre notas pronunciadas em dupla e espaçadamente, a canção acaba, invariavelmente, depositando, sobre seu alicerce, uma brisa dramática serena. O interessante é perceber que, conforme se desenvolve, a obra não apenas destaca uma levada rítmica amaciada e levemente sensual, mas enaltece o senso de morfina produzido pela combinação do wah-wah da guitarra com a maciez percussiva. Delicada e já comunicando um audacioso flerte para com o campo estético do R&B, Legendery Elevation, além de promover uma textura aconchegante, consegue, com a adesão do timbre suavemente rouco de Nia Cheri, ofertar um swing de natureza orgânica que permite ao ouvinte a identificação de uma brisa espirituosa pairando livremente pela atmosfera da composição.
Gametime é um álbum que chama a atenção do espectador por diversos fatores. Incluído no universo do hip hop, ele apresenta uma combinação de elementos estruturais que surpreende o espectador pela liberdade que exerce em relação aos padrões preestabelecidos do gênero.
Sem a utilização de sbgraves como elemento de auxílio na criação e enaltecimento sensorial de pungência e drama, o material conquista essas experiências sensoriais através da voz, da maneira com que a sonoridade melódica se combina com o beat e pela interação de Mitchell com os diferentes timbres de seus convidados. Entre a delicadeza e a intensidade, portanto, o disco consegue criar uma intersecção rígida entre a consciência e os lapsos de torpor.
Ainda que dê maior destaque às suas quatro primeiras músicas pelo motivo de elas salientarem com mais precisão os apontamentos elencados, Gametime é, inteiro, uma surpresa. Afinal, do drama ele leva ao romântico. E do romântico ao amorfinante. Do amorfinante, acontece uma incursão em aspectos mais realistas que apresentam um caráter autobiogtráfico.
É aí que o ouvinte consegue capturar o espiritual fluindo livremente pela arquitetura rítmico-harmônico-melódica. Nela, se tem a perfeita noção de que o álbum, em sua máxima essência, trata de ganhos e perdas em meio a inspirações paisagísticas que transitam entre positividade e gentileza. Tudo imerso em aromas doces e brisas nostálgico-melancólicas.
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