Highs & Lows | Eoin Shannon lança álbum que é um atestado às suas influências

Eis aqui uma faixa que não surpreende apenas pela sua crueza, mas, principalmente, pela forma como ela consegue combinar essa característica tanto com a sensualidade quanto com a leveza. Diante de uma narrativa lírica vivida por uma voz masculina grave de caráter rasgado, Going Through Hell é banhada pela visceralidade, pelo drama. Pelo sentimentalismo pungente. Um blues completamente sofrido, melancólico e, consequentemente, choroso.

Moldada através da união do timbre marcante de Eoin Shannon com uma convidada que entrega sutileza, frescor e dulçor à paisagem lírica, a presente faixa consegue oferecer ao ouvinte uma espécie de romantismo que, curiosamente, flerta com um ecossistema jazz oriundo do fim da década de 30. Aromática e aveludada em sua máxima essência, Fall Into Your Arms Again se vale pelo seu minimalismo estético-estrutural e pela sua harmonia vocal lexicalmente graciosa.

Adquirindo o controle de um blues padrão tal como aconteceu em Going Through Hell, a faixa combina os suspiros melancólicos da guitarra, os pulsos bem marcados pela bateria e a mesma sintonia lírica oferecida na composição anterior. Ausente de romantismo, porém, God Only Knows chama a atenção por ser agraciada pela presença de backing vocals que inserem o soul à camada harmônico-lírica, contribuindo, assim, para a aquisição de uma dramaticidade quase visceral. 

Definitivamente, a estrela da vez é a voz e a interpretação lírica entregue por Shannon. Visceral, dramática e melancólica, ela mostra uma exploração maior de seu tom rasgado, de forma a entregar, à paisagem cênica, maiores doses de sentimentalismo. Ganhando um quê orgânico latente, One Crazy Day, de maneira interessante e até mesmo ousada, combina swing, um ritmo quebrado e um toque provocante que desperta, em meio ao torpor irresistível, um leve senso de libido. 

Existe sim um frescor. Mas o frescor que banha o ecossistema, como de praxe, é abraçado por densas camadas melancólicas suspirantes introduzidas pela forma como o piano se pronuncia diante da camada harmônico-melódica introdutória. Explorando um melodrama que ganha ainda mais força perante o lampejo choroso do violoncelo, o instrumento acaba trazendo uma pungência que acompanha, até mesmo sem permissão, o enredo lírico construído por Shannon e a mesma voz feminina que vem o acompanhando desde Fall Into Your Arms Again. Minimalista, Happiness Has Come To Town escancara, uma vez mais, a simetria lírica existente entre o vocalista e seus convidados que formam um backing vocal emocionalmente consistente.

Pode ser um título até mesmo autoexplicativo. Afinal, Highs & Lows é um álbum que apresenta ao ouvinte um cardápio de sensibilidades propositadamente destoantes. Do torpor, melancolia e o drama ao bem-estar, lapsos de felicidade e até mesmo doses de sensualidade, o material caminha entre os altos e baixos da vivência emocional humana.

Apoiado em uma pungência marcante que é devidamente engrandecida por interpretações líricas intensas, o material, mesmo dando destaque às suas cinco primeiras músicas por mostrar isso de forma clara, combina o blues, o soul e um jazz onipresente diante de paisagens estético-estruturais que oferecem até mesmo lapsos de romantismo. Eis aqui, portanto, um material cru, mas cuja identidade orgânica é capaz de fazer o ouvinte mergulhar fundo em cada cenografia sensorial proposta.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7njGUl8GeClZ8XGu0qD3fk

Instagram: https://www.instagram.com/shannoneoin?igsh=aDRwdDR0d3JvN3dy