Seu início disfarça. Mal dá para se ter ideia de que se trata de uma composição rap. Afinal, é com groove e sensualidade que a composição nasce. Ainda assim, é claro que a maneira com que a bateria desenha o desenvolvimento rítmico denuncia tal inclinação estrutural. Pulsante, sincopado e com boas nuances de fluidez, ele confere um movimento amaciado que permite a elaboração lírica nos moldes exatos do rap, com direito a rimas, versos pronunciados em diferentes cadências e uma atmosfera urbana marcante. É isso que faz com que Every Struggle seja, desde o primeiro beat, uma faixa marcante e hipnótica que, ainda, conta com a presença de J-Mac.
Aqui, o torpor domina o escopo sensorial. Graças ao sintetizador que molda a sonoridade na base melódica, existe uma maciez introspectiva capaz de tirar os sentidos, atitude essa que lida com o contraponto do beat bem marcado e de um sonar sintético de natureza suavemente azedo. Não que a obra tenha, necessariamente, um aspecto sombrio, mas a forma como o rapper interpreta o lirismo, em união com certos sonares produzidos, faz com que o ouvinte se deleite com brisas associadas a essa sensibilidade. Em Voodoo, indiscutivelmente é o lirismo sincopado que assume o protagonismo absoluto, contagiando o ouvinte de maneira irresistível.
É chegado o momento em que a dramaticidade atinge seu topo. A partir da desenvoltura do teclado, existe um sofrimento que começa a pairar livremente pelo ar, fazendo com que a composição, gradativamente, assuma uma postura introspectiva e cheia de lamentação. Delicada em meio ao seu alicerce sonoro lacrimal, a faixa consegue amplificar essa sensorialidade sofrida a partir da união do tom grave do vocalista com um beat capaz de sintetizar essa introspecção reflexivo-melancólica e uma melodia harmoniosa que dá voz às lágrimas. Com refrão cantado por uma voz aguda, delicada e cuidadosamente açucarada, Hope In The Hoods alcança seu ponto máximo de sentimentalismo de uma forma que toca o ouvinte profundamente.
Essa mesma voz feminina que regeu, com certo brilhantismo sintônico-emocional, o refrão da canção anterior, dá vida ao lirismo da presente composição desde seu início imediato. Se mostrando firme e concisa e, portanto, capaz de destacar certo grau de imponência na forma como dá vida ao enredo lírico, essa voz serve como uma espécie de arma em relação ao descontentamento perante a falsidade que rege o comportamento das pessoas. O interesse, aqui posto em xeque, abriga o cerne de Everybody’s Friend.
Apesar de ser um álbum rap, é preciso pontuar que Hood Rats consegue contagiar e atrair a atenção do ouvinte de uma forma completa e surpreendentemente orgânica. Sem se utilizar demasiadamente de apelos como subgraves e autotunes, o material se mostra o mais honesto possível tanto em estrutura quanto em estética.
Cheio de versos líricos sincopados e beats marcantes, mas sem soarem necessariamente rígidos ou duros, o material, por muitas vezes, se vale tanto pelo conteúdo lírico quanto pela combinação harmônico-melódica proferida pela sintonia entre voz e sintetizador. E nesse sentido, Lisa Jo parece ter encontrado o parceiro ideal para dar vida e alma aos conteúdos verbais apresentados. Com sinceridade emocional e certa pungência em suas pronúncias, J-Mac consegue levar o ouvinte do contágio ao drama com grande versatilidade. Não é à toa que ele está presente em grande parte das composições da track list do álbum.
Ainda que tenha, em si, suas quatro primeiras faixas um maior destaque por encapsular, de melhor forma, o que foi pontuado até então, títulos como a dramática Beast With Rage e a resiliente Street Queens destacam o fato de que Hood Rats dialoga tanto sobre a busca de um lugar no mundo quanto o poder e o controle adquiridos ao se chegar ao topo.
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