Desde seu início imediato, a canção já é capaz de inebriar e embriagar o espectador com seu toque de suspense introspectivo e de nuances curiosamente sombrias. Fornecido cuidadosamente pela união dos pulsos secos do baixo com um vislumbre melódico entoado pelo violão, a canção começa a ganhar sintomas de sensualidade conforme uma inclinação sonora sintética passa a reger seu ecossistema de maneira gradativa. Garantindo para si brisas esotéricas, a faixa-título é agraciada, ainda, por um desenho aéreo que entorpece o ouvinte de imediato.
O ácido e o azedo se fundem já perante os primeiros sinais sonoros dessa nova composição que se anuncia. Nesse meandro, a estridência é um detalhe que, inclusive, é notado preenchendo toda a paisagem sônica em desenvolvimento. Introspectiva, mas com grandes doses de um quê sci-fi em sua receita, a composição coloca o espectador, sem qualquer receio, em contato com um ecossistema tenebroso, mas não necessariamente trevoso e pegajosamente sombrio. Ainda assim, perante essa fórmula, Soft Spot é capaz, sim, de causar calafrios e instigar um senso de insegurança no espectador, que se percebe alucinando perante as sonoridades sintéticas experimentais da obra.
São como uivos, mas não uivos que vêm para assustar. Até porque, diante da sua estrutura e pela forma com que são explorados, eles, invariavelmente, permitem que o ouvinte perceba a existência de densas doses de melancolia permeando o ecossistema. Ganhando ritmo graças aos pulsos secos que passam a surgir em meio a esse cenário indiscutivelmente entorpecente, a canção explora brilhantemente a introspecção com um quê amorfinante profundo. Ainda que sem qualquer elevação ou mudança em sua estrutura harmônica, Monsters Are Due é como um circo de horrores levemente dançante em meio à sua cenografia noturna embriagante.
Surpreendente e felizmente, o movimento de Hotel Real acaba trazendo o ouvinte para um primeiro contexto convidativo. Porém, se engana aquele que pensa que Cheers consiste em uma música expansiva e festiva. Não. Na verdade, a faixa se consagra como um produto igualmente introspectivo, mas com um toque diferente marcante. Com sua sonoridade sintética aguda, a faixa explora, com mais profundidade, o caráter esotérico de maneira a introspectar e levar o ouvinte para um mundo fantasioso, fantástico. Utópico. Mesmo quando o sonar seco e sequencial do chimbal se torna presente em meio a pulsos ocos identificando a presença de vislumbres rítmicos, a canção ainda mantém a sua natureza mística de maneira envolvente e marcante.
Dá para dizer, sem medo ou dificuldade, que Hotel Real se consagra como um álbum intimista, esotérico e entorpecente. Regido por sonoridades sintéticas que exploram a morfina, a delicadeza, o dulçor e a melancolia, o disco convida o ouvinte para uma experiência sônica completa, com direito, inclusive, a momentos de tensão e insegurança.
Esses detalhes não apenas mostram, mas evidenciam, acima de tudo, uma postura irreverente, autêntica e, até mesmo, autoconfiante possuída por parte de Michael Donoghue. Afinal, em se tratando de um disco instrumental, é preciso muito mais sensibilidade e uma criatividade mais aguçada para prender a atenção do ouvinte durante toda a execução do produto. E Hotel Room alcança esse feito.
Especialmente, esse processo se deve às quatro primeiras obras do material pelo fato de elas conseguirem sintetizar, de uma forma mais enfática, todos os apontamentos dados até aqui, com a adesão de pincelarem nostalgia e nuances sci-fis em suas estruturas. Independente disso, Hotel Room consegue cativar e entorpecer o espectador em toda a sua construção sônica. Afinal, cada um de seus oito títulos são uma prova da jornada sugerida por Donoghue em relação ao autodescobrimento e ao senso de confidência.
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