É interessante como as duas camadas harmônicas presentes logo no despertar da composição sugerem uma atmosfera terna que beira uma compaixão de caráter bastante emotivo. Enquanto o piano caminha com suas notas doces e suaves pela camada melódica, os sobrevoos açucarados de brilho fantasmagórico obtidos com a ressonância simpática das cordas altas e com o ruído de fundo dão ao contexto um caráter de pura transcendentalidade. Ainda assim, no instante em que a camada lírica começa a ser desenvolvida por uma voz masculina de timbre intermediário, a dramaticidade e a melancolia se mostram como dois ingredientes sensoriais inevitáveis para a construção emocional de Lost.
A gentileza presente no dedilhar do piano a partir da presente introdução sugere um caráter devidamente mais leve, fluido e melodioso. Não que alcance um patamar devidamente radiofônico, mas é um fato que a sonoridade ofertada pelo instrumento é, aqui, mais digesta. Mesmo assim, a dramaticidade entra com ainda mais força e com um tom de súplica a partir da desenvoltura assumida pelo instrumento. Com um viés um tanto catedrálico e de menções gospels em razão da estética obtida com os backing vocals e sobreposições vocais, a faixa-título traz um quê de desesperança e lamento bastante profundo.
Enquanto o piano desfila um dedilhado cuidadoso e de fluidez curiosamente amaciada, existe uma sonoridade de sabor adocicadamente ácido pairando pelo ambiente aparentemente proveniente da sanfona. Entregando excentricidade à obra, o elemento acaba incutindo Pray em uma seara folk céltica penetrante que exorta uma identidade madura e consciente. Ganhando batimento a partir do pulso oco produzido pelo bumbo, a faixa dá ao seu caráter melancólico uma cadência a seguir, uma espécie de propósito à sua dor.
Diante da dramaticidade melancólica e lacrimal exibida logo perante os primeiros sinais da sua introdução, a canção combina a valsa chorosa do violino com a cristalidade agudo-sensitiva do piano na dianteira melódica. Como a obra mais visceral, rascante e lancinante do EP, The First Time transpira arrependimento por todas as suas fendas a partir de uma narrativa crua e direta que traz consigo uma grande carga nostálgica.
De fato, In The End é marcado pela sua paisagem sonora crua. Porém, dentro dessa crueza, existe a sabedoria e a ousadia. E isso pode ser percebido por meio das maneiras com que Hurb Jephasun alcançou determinadas sonoridades presentes por entre os arranjos das quatro faixas que preenchem o EP. Todas elas, contudo, estão interligadas por questões fortes associadas à identidade do artista: melancolia, introspecção, dramaticidade e, principalmente, honestidade. Cada palavra pronunciada é carregada de uma sinceridade tamanha que coopera com a profundidade e o peso emocional desse que é um extended play sem polimento, sem filtro e cru em meio à base lo-fi.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/4OBtdBcnq08Q7zNNj4BA2s
Bandcamp: https://hurbjephasun.bandcamp.com/album/in-the-end
Instagram: https://www.instagram.com/mrhurb?stkn=MXF3Y3JuMjEzYmRsZQ==
