Inertia | Bárdits Éva apresenta álbum que critica o capitalismo e o patriarcado

Dá para dizer que na introdução da composição supera a ideia da audácia. Afinal, diante de um som estridente, quase em forma de um ruído, ela coloca o ouvinte perante uma sensibilidade levemente incômoda permeada pelo burburinho de vozes ao fundo, criando uma temática ambiente. Trazendo consigo boas notas de crueza a partir daí, a faixa pincela a estridulância aguda e açucarada da gaita como forma de oferecer os primeiros contornos instrumentais. Quando esse aspecto começa a ganhar o corpo devido, o ouvinte se depara com uma sonoridade grave e de conotação interessantemente melancólica de nuances introspectivas, transformando a experiência sensorial para um escopo cheio de densidade. Ainda assim, é curiosa a forma como Days consegue ser delicada em meio à sua proposta reflexiva mergulhada em uma intensa vivência imersiva. Completando essa atmosfera, está uma voz feminina que sugere fragilidade e pronúncias que embebem o ambiente em algo mântrico e meditativo.

O som da água corrente, por si só, indica a ideia de fluidez. Ao mesmo tempo, a partir dele, o ouvinte é abraçado por um conforto envolvente associado à tranquilidade, à paz e ao bem-estar. Com uma delicadeza marcante, também envolta na presença de burburinhos de vozes que denotam uma tomada crua e de nuances suavemente espontâneas, a faixa surpreende por desenvolver a sua ambiência para um cenário introspectivo. Em razão do som tilintante do xilofone, que, por sinal, induz uma ideia até mesmo lúdica e infantil, o torpor e o imersivo se fundem em uma temática surpreendentemente onírica. Com uma interpretação lírica embasada em modulações levemente ondulantes, a cantora consegue amplificar a vulnerabilidade de Water de forma a promover uma sensorialidade transcendental penetrante.

É tremulante, áspero e de contornos estridentes. O som que rege o nascimento da obra garante, ainda, uma linearidade rígida e resistente que, curiosamente, tem o poder de entorpecer o espectador. Como a obra de duração mais curta de Inertia, Under/over se mostra um interlúdio que surpreende por, a partir de certo momento, ser abraçado por uma camada lírica gutural de forma a fornecer uma energia etérea graciosa e hipnotizante. 

Nascendo a partir da união do som do chiado permeando a base estética com a agudez aveludada e quente obtida pelo violão de nylon, a faixa explora uma introspecção que ganha contornos inquestionavelmente entorpecentes pela forma com que os versos líricos são vividos pela cantora. Embriagantes, para dizer o mínimo, eles exortam uma ideia mista de contemplação, reflexão e intimismo que envolve o espectador em uma vivência hipnótica que marca o minimalismo estético-estrutural de Person.

O que Bárdits Éva sugere com Inertia é um compilado de 10 composições que convidam o ouvinte a viver experiências verdadeiramente imersivas. Diante de introspecções latentes e um instrumental inquestionavelmente minimalista, o disco permite a exploração do inconsciente por meio de atmosferas que trazem consigo traços de um misticismo esotérico audaciosamente embriagante.

De temática crua e se pautando na categorização do lo-fi como definição de sua sonoridade, o disco ainda sugere o uso dos chiados como elemento responsável por engrandecer as suas texturas e trazer ligeiros lapsos de lucidez. Com destaque também a obras como A-A Trap pelo uso do piano para entregar um dulçor agudo e açucarado em meio à secura melódica; e WWHD por trazer a vivacidade ácida e doce da sanfona abrilhantando o seu despertar. Com elas também na soma dos destaques, Inertia convida o espectador para espaços de resiliência, empatia e reflexão.

Mais informações:

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