Referências ao Queen são impossíveis de não serem notadas. Afinal, tal como o grupo inglês fez em seu single Bohemian Rhapsody, Glenn Thomas propõe um despertar sônico através de sobreposições vocais de aparência operística na faixa-título. Criando, assim, uma atmosfera dramática e, portanto, teatral, a música se permite caminhar, através de uma nuance introspectiva intensa, por entre ambientes emocionalmente viscerais que tangenciam a melancolia. Mas o que de fato chama a atenção é o fato de a música ter uma base sensorial transcendental e etérea que convida o ouvinte a se deixar levar pelos ímpetos de torpor motivados pela combinação de sons líricos.
Diferente da canção anterior, aqui a melodia e o escopo rítmico se encontram de imediato. Ainda assim, tal intersecção não afugenta a obra dos vieses introspectivo e delicado, os quais têm se mostrado uma assinatura sonora por parte de Thomas. Aromática e suave, além de ser abraçada por educadas pitadas de frescor, Gathering My Composure caminha por entre esferas percussivas cuidadosamente sincopadas que conferem, ao ambiente, uma boa e fluida noção de movimento. Ainda que ritmicamente linear, a faixa ganha a atenção pelos seus sons íntimos, perfumados e frágeis a ponto de criar uma atmosfera sensorial aconchegante e macia, ainda que contenha brisas melancólicas em sua forma.
É chegada a primeira balada do álbum. Delicada, macia, introspectiva e, também, melancólica, a canção se mostra diante de uma estrutura cacada na paisagem padrão do blues. Com andamento rítmico em 4×4, presença de um piano de notas tristes e uma energia chorosa, nem mesmo a melodia do violão consegue afugentar o ouvinte de uma pegajosa atmosfera lamentadora. Frágil e dramática, mas sem ser apelativa, Blues To Nowhere traz Thomas com um vocal lexicalmente transparente ao ponto de proporcionar, ao ouvinte, a completa degustação de seu tom. Assim, é possível de se perceber, por meio de suas nuances agridoces, uma semelhança vocal em relação aos timbres de Jason Mraz e Ed Sheeran, o que auxilia na obtenção de uma experiência sensorial leve e flutuante.
De levada rítmica trotante, mas posicionada de forma a soar o máximo de frágil possível, a canção, ao menos durante a introdução, se mostra a obra percussivamente mais delicada de todo álbum. Doce e intimista, a faixa é feliz em levar o ouvinte para um ambiente estético moldado na combinação de folk e pop. Aromática, fresca e com nuances cenográficas sertanejas, Miles To Go é abraçada pelo charme bucólico do banjo conforme apresenta um lirismo baseado em amadurecimento e autoconhecimento.
Inevitables pode ser definido como um álbum de vertente acústica. Afinal, não importa se, nele, existem fusões estruturais do folk ou do pop. Suas paisagens são sempre sertanejas, o que leva o ouvinte a perceber detalhes importantes no que tange a experiência sônica por ele ofertada. De postura intimista, o material caminha por terrenos de grande fragilidade, dulçor e frescor, mas sempre envoltos em brisas melancólicas que, por vezes, chegam a ser intensas e pegajosas.
Com tons compassivos e enredos líricos gentis em sua forma de abordar questões inerentes ao psicológico, o álbum convida o ouvinte a dissecar seu interior na ânsia de permitir um processo profundo e honesto de autoconhecimento. Com uma paleta de cores serena, apesar de suas quatro primeiras faixas se destacarem diante as demais, Inevitables é, por inteiro, um material que oferece uma espécie de vivência íntima em prol da autopercepção.
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