A delicadeza se forma a partir da união entre a desenvoltura do violão, a suavidade do ressoar de suas cordas e a brandura tilintante proporcionada pela cúpula do prato de condução. Promovendo a assumição de uma postura intimista, o instrumental que rege a introdução traz consigo um frescor agradavelmente macio e entorpecente. Essa suavidade também é escancarada pela maneira com que John Lebanon emprega seu timbre intermediário na ânsia de dar vida ao enredo lírico. Contagiante, graciosa e dançante mesmo com brisas de uma linearidade rítmico-melódica, Hurricane Eyes funciona como um bom abre-alas de Kite Without A String. Ainda assim, ela não é uma obra dita como faixa-chave do álbum.
Com sua introdução introspectiva e de contornos levemente melancólicos marcantes, a faixa-título é uma das candidatas que marcam a identidade do disco como um todo. Minimalista e com uma leveza que chega a beirar o transcendental em razão da maneira com que a guitarra vai moldando a melodia, a canção, enquanto promove uma sinergia emotiva afiada entre o referido instrumento e a camada lírico-interpretativa, acaba atingindo um patamar que parece combinar nostalgia com contemplação. Tudo acalentado por um clima agradavelmente morno construído por uma bateria de levada cuidadosamente trotante, uma guitarra que também se aventura por entre suspiros e um baixo groovado e encorpado que confere uma curiosa firmeza à fragilidade estético-estrutural.
Nesse novo recorte, o ouvinte se depara com uma movimentação rítmica branda e curiosamente abraçada por um compasso levemente quebrado. Ainda assim, o que o ouvinte consegue identificar durante a execução da faixa é uma pura leveza instrumental associada à introspecção e a texturas aveludadas. Muito além desse detalhe, Maksour é marcada por uma idiomática árabe adornada por conteúdos percussivos presentes que inserem o dabke em sua receita rítmica. Além disso, a maneira como Lebanon constrói o enredo lírico expressa grande imersão na esfera do tarab, principalmente pela carga emocional que entrega em suas pronúncias e pela adoção de repetições sequenciais dos versos verbais. Dessa forma, a faixa atinge um regionalismo bastante marcante.
Eis aqui uma canção pautada na delicadeza em sua forma mais frágil. Porém, nesse âmbito existe uma melodia extremamente graciosa, mesmo que minimalista. Desenhada pela guitarra de forma a expressar uma natureza pura e quase ingênua, a faixa explora uma desenvoltura mansa, mas bastante aromática e atraente. Ainda que de caráter radiofônico, é importante destacar que a composição não se torna apelativa em momento algum, defendendo a sua força estético-estrutural com um encorpamento cuidadoso proferido pelo baixo na base melódica. Capaz de promover suaves nuances dançantes, a composição explora, a partir da interpretação lírica, uma introspecção contemplativa que estimula a vivência do momento presente. Eis Vermontier – Dusk Edition.
Kite Without A String, desde o seu início, é marcado por uma identidade sonora consistente e inquebrantável. Muito mais do que se aprofundar em regionalismos, o material é marcado por uma boa mistura de essências musicais provenientes dos dois polos do planeta. Aqui, portanto, o ocidente conversa com o oriente de uma forma harmoniosa surpreendente.
Caminhando por universos da cultura musical árabe com bastante conhecimento de causa, o disco, a partir do comando de Lebanon, explora o romantismo, a delicadeza e a imersão. Pelo lado do ocidente, a leveza e os sussurros trazem consigo conceitos da música indie com a necessária vulnerabilidade. A partir daí, o álbum se mostra um produto que transpira honestidade enquanto destaca a busca por um senso de pertencimento.
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