Jungaji anuncia Betting On Blak, seu álbum de estreia

Excentricidade e autenticidade podem ser palavras que definem com maestria a faixa de abertura do álbum. Afinal, baseada apenas na voz intermediária de Jungaji, a introdução captura o cantor em uma pura declamação poética à capella. Surpreendendo ainda mais o espectador, Renaissance Rambler rapidamente exorta sua magnitude ao ofertar uma madura camada harmônica providenciada pelo sonar adocicadamente ácido e presente do hammond em união ao compasso embrionariamente sensual estipulado pelo chimbal de som seco. Entre rompantes explosivos, a faixa destaca sua natureza rock clássica, daquelas que rememoram canções de grandes nomes como Chuck Berry e Lou Reed. E o interessante é que a presente faixa embebeda o ouvinte com sua atmosfera penetrantemente bucólica.

Quase como um freio brusco, a presente canção propõe uma pausa na adrenalina sensual sugerida na obra anterior. Fazendo o ouvinte entrar em contato com o introspectivo, a presente música, com sua estrutura melódica minimalista, exorta uma brisa pegajosamente melancólica através de sua cenografia cinza. Densa e interessantemente incômoda por despertar, no espectador, sensos de solidão e insegurança, Gummy Bamarra se configura como um folk de natureza nativa, caráter que é transpirado principal e especialmente em virtude do enredo lírico entregue.

A tensão se firma através do piano e suas notas delicadamente graves e cuidadosamente espaçadas. Com esse efeito, inclusive, a composição rapidamente consegue transpirar generosas camadas dramáticas perante seu ecossistema em desenvolvimento. Proferindo um enredo lírico em que destaca a sua escola de canto soul, Jungaji, assim como fez na faixa anterior, explora nuances interpretativas que sugerem o nativo até o momento em que o instrumental se apresenta com mais ênfase. Desse momento em diante, Mission Streets mostra, com clareza, o seu viés sincopado e, consequentemente, sensual, em que a bateria assume grande importância.

Com uma introdução já madura, a qual é ilustrada através da sintonia afiada entre os pulsos rítmicos e o sonar melodioso-harmônico do dulçor ácido do wurlitzer, a canção consegue exortar um swing envolvente, mas sem necessariamente se apoiar no lascivo. Com contribuições também do hammond no que tange a base harmônica, a faixa vai, gradativamente, exortando sua identidade mista de soul com flertes no R&B. Com o apoio pontual de um time sintônico de backing vocals, a faixa-título transpira frescor e envolvência de forma orgânica e fluida. 

Ela é lexicalmente doce, açucarada e viciante. Essencialmente sensual em virtude do groove saliente do baixo, colocado em interessante evidência durante a introdução, a composição transpira pegajosos aromas românticos sobre a atmosfera. Esteticamente aveludada, confortável e, consequentemente, aconchegante, Adore, com o apoio de uma guitarra macia em cena sob o efeito do wah-wah, além da cama harmônica fresca e frágil do teclado, coloca o R&B em absoluto foco dos holofotes. Inclusive, a forma como Jungaji dá vida ao enredo lírico, cheio de melismas maduros e consistentes, confirmam essa constatação ao mesmo tempo em que enaltece o tepor sensual da obra.

Betting On Blak é um álbum que pode ser colocado como provocante. Provocante em virtude de sua autenticidade e de sua excentricidade expansiva. Mergulhando perante diferentes paisagens estruturais, o álbum oferece ao ouvinte uma completa viagem sônica que o leva a experienciar a sensualidade, a libido, mas também o nativo e o drama em uma receita melódico-sensorial bastante equilibrada.

Dando destaque ao soul, R&B e folk, o material não se intimida ao, também, mergulhar em cenários que permitem a elucidação da levada rítmica tradicional do rock com toques contagiantes da motown. Isso tudo é capaz de ser identificado diante, principalmente, das cinco primeiras canções da track list, as quais se mostram, ao mesmo tempo, expansivas e introspectivas, mas capazes de trazer, também, o dulçor em forma de romance.

Ainda assim, uma coisa é inevitável. O álbum é, por completo, uma prova de autenticidade e sensibilidade musical. Inclusive, todas as suas canções possuem um enredo rítmico-melódico maduro, consistente e envolvente. Sempre capaz de trazer pitadas de frescor, o álbum é marcado por uma brandura contagiante, mesmo quando explora veias sensoriais melancólicas. Definitivamente, aqui está uma experiência sonora única.

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