Enquanto o shaker assume protagonismo diante da atmosfera introdutória ao sugerir texturas levemente ásperas, um som grave vai moldando a base melódica de forma a evidenciar a cuidadosa adoção do efeito fade in. Sugerindo uma sensualidade acústica e de nuances charmosas cruas, a faixa é respaldada por um verso lírico de aparência narrativa e ambiente oferecido por uma voz feminina doce e aguda. Dançante, mesmo apresentando um formato de prelúdio, Intro, a partir de seus instrumentais, que evidenciam o uso de elementos de sopro como o saxofone, oferece e apresenta uma roupagem jazz-hop cativante e com um charme retro requintado.
Introspectiva, melancólica e macia. Essa trinca de características é capaz de sugerir uma boa diretriz do que o ouvinte encontra em El Diablito, uma composição cuja base blues sugere uma movimentação amaciada, mas cabisbaixa. Diante de seu compasso 4×4, portanto, a faixa se beneficia da agudez tilintante daquilo que parece ser o xilofone como forma de criar uma sensorialidade lexicalmente hipnótica. Imersiva, a faixa surpreende por ser respaldada por versos líricos pautados na esteira do rap. Cadenciados, sincopados e rimados, eles conferem um viés reflexivo à obra.
O som da abertura de latas de cerveja pode até incitar a ideia de confraternização e, portanto, de alegria e expansividade. No entanto, o que El Borracho faz a partir dessa esfera ambiental é promover o surgimento de uma sonoridade crua, minimalista e introspectiva. Destacando o groove levemente grave do baixo como seu principal elemento sônico, a canção se beneficia da densidade enquanto a bateria desenha uma esfera rítmica simplista bruta no sentido da ausência de lapidação. Contagiante em razão de seu conteúdo lírico, a faixa segue o caminho da obra anterior e tem, nas rimas, um coringa para a aquisição do apelo popular.
O som agudo e estridente do trompete ao fundo consegue induzir, no ouvinte, a percepção de uma embrionária inserção do mariachi como ingrediente sônico da música que se anuncia. Ainda assim, o ritmo, pautado na forte influência estrutural típica do boom, vem como forma de criar um clima e peso dramáticos ao invés de se basear mais no balanço noventista. Não é de se espantar, portanto, que El Soldado seja completado por um lirismo abraçado por densidade e um toque de realismo que lhe entrega uma natureza ainda mais orgânica.
Se antes a dramaticidade se fazia presente a partir das frases rítmicas, aqui ela aparece em meio à sua instrumentação de natureza levemente erudita. Sugerindo contornos de um jazz-hop nos mesmos moldes de Intro, Interlude traz consigo uma sensorialidade onírica de brisas reflexivas trazidas pela idêntica voz feminina e adocicada. Entre flauta, baixo e bateria, o que a faixa oferece é um veludo hipnótico que se contrapõe em relação à seriedade dos versos verbais.
Diante de La Lotería, Lefty Barnes apresenta um conjunto de composições respaldado por uma mistura de paisagens sônicas capaz de ser penetrante e até mesmo viciante. Mesmo em meio a momentos de densidade, melancolia e brisas reflexivas, o disco traz consigo um rap cativante que combina elementos do boom bap e do jazz-hop, tornando-o um álbum charmoso, mas, ao mesmo tempo, cru e visceral.
Delicado em relação à sua estética, o material chama a atenção pela sua base robusta e seca graças ao ideal destaque colocado sob a imagem do baixo, contribuindo para a obtenção de uma densidade consistente. Isso pode muito bem ser observado principalmente no desenrolar das cinco primeiras faixas de La Lotería, um material conceitual que reimagina, pelas lentes do rap, o bingo mexicano.
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