É interessante perceber como a composição, mesmo ainda sem estar devidamente moldada, consegue hipnotizar o espectador com a sua interessante mistura de texturas tribais com uma sensualidade percussivamente acústica. Inclusive, a estrutura lírica torna a ambiência ainda mais penetrante e hipnótica por oferecer nuances igualmente nativas, tornando Fire Dance em uma verdadeira cantiga de identidade indígena.
Folks, por outro lado, não se apoia no naturalismo. No torpor da natureza e do meio ambiente tal como a sua precursora fez. Na presente faixa, o rock já se posiciona em cena com sua identidade crua por meio dos uivos da guitarra ácida. Ainda assim, ao engatar em um processo de desenvolvimento sequencial, a faixa transforma a sua atmosfera em uma estrutura rítmico-melódica mansa e levemente sensual marcada pelo compasso sincopado da bateria.
Com densa, provocante, sensual e encorpada presença do baixo, a canção, logo em seu início, esbanja uma corpulência estrutural que, junto aos outros elementos sonoros, contribui para a construção de uma atmosfera sensorialmente flertante para com a psicodelia. Enaltecida pela interpretação lírica assumida pela cantora, essa perspectiva ainda ganha novas menções de tradicionalismo com a adoção de instrumentos como o triângulo e a flauta, o que faz com que a faixa-título desenvolva, inclusive, uma cenografia folkeada.
Sem dúvida, a beleza reside na experimentação. Na ousadia de criar atmosferas que fogem do senso comum. Que superam as fronteiras radiofônicas e atingem o novo sem medo de represálias ou julgamentos. Com grande postura de certeza e consciência, é isso o que o Haara entrega com Lambs.
O disco, nesse aspecto, não apenas traz a crueza como se conhece. Ele fornece a junção da tradição, do folclórico, do cântico com uma ambiência natural no que tange, propriamente, a atmosfera da natureza. Cheio de estruturas lírico-sonoras indígenas, o tornando um expoente do som nativo, o álbum ainda experiencia momentos de sensualidade e, inclusive, de um torpor associado à psicodelia.
Ainda que os três primeiros títulos de sua sequência de músicas salientem com afinco esses apontamentos, Lambs é, inteiro, uma viagem sônica pelo novo. Uma jornada para aqueles que não tem medo da aventura pelo novo. Que são ausentes de preconceitos e que, portanto, são abertos aos experimentos. Um disco feito para os audaciosos de ouvido seleto.
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