Lampin’ | Com novo álbum, Synthonic apresenta uma coleção de canções com energia funk

O frescor pode ser o elemento sensorial mais predominante na canção de abertura do álbum. Ainda assim, ele é envolto em uma sensualidade de temperatura morna típica de verão. Leve, mansa e agradável, essa melodia, inicialmente minimalista e unilateral, passa a ganhar contornos de groove oferecidos não pelo baixo, mas, sim, pelo piano e suas notas graves em contato com a suavidade percussiva. Sincopada, All Day, Every Day acaba mergulhando no espectro do funk de forma definitiva assim que o baixo enfim entra em cena com sua atmosfera azeda promovendo lapsos de torpor. A surpresa, porém, vem quando um time de metais assume o protagonismo absoluto. Desenvolvendo uma linha harmônica solar, ele transforma a obra em um produto envolvente de caráter irresistivelmente enérgico.

Chameleons já tem seu início marcado por uma acidez típica do wurlitzer. Mantendo o viés sincopado experienciado na composição anterior, a presente faixa entrega mais protagonismo à camada rítmica. No caso, ela vem ligeiramente mais acelerada, oferecendo ao ouvinte um andamento ligeiramente mais elétrico. Ainda assim, a esfera percussiva serve apenas como uma espécie de cama de consistência para que outros instrumentos tenham uma liberdade ligeiramente maior para desenvolver seus papéis. É o caso da guitarra que, além de ofertar frescor, despeja, perante o ambiente da obra, uma sensualidade envolvente e dançante, mas completamente alheia a qualquer menção sexual.

É como se o álbum pedisse por um momento de desacelerar. Afinal, o que se tem aqui é uma sonoridade adocicada. Lexicalmente açucarada para ser mais específico. O fato é que, diante desse sabor, a canção passa a explorar texturas mais aveludadas que fornecem interpretações sensoriais que levam a identificação de brisas românticas pairando pelo ar. Construída através do fender rhodes, a melodia da presente faixa traz consigo nuances aconchegantemente florais capazes de surtir em um efeito entorpecente demasiadamente agradável. Atraente e irresistível, Tonight se apresenta como uma faixa ousada em que o Synthonic se permite experimentar outra paisagem sonora que não o funk necessariamente. Afinal, aqui a estrela é o R&B e toda a sua maciez aveludada e apaixonante.

Não demora muito, porém, para que o funk reassume a sua hegemonia. Já em The Quirk, através, principalmente, da estrutura rítmica requebrada, esse estilo musical se faz presente. Sensual, provocante e quase anárquico em certa medida, ele se mostra, também, através do time de metais que torna a canção solar e da reprodução do sonar adocicadamente ácido do hammond moldando a sua atmosfera harmônica. Ainda assim, chama a atenção o fato de a faixa ser construída perante uma base estritamente macia.

Descrever Lampin’ sem cai em reducionismos pode ser uma tarefa difícil. Afinal, a cada palavra utilizada ou frase construída, o foco seria defender a ideia de que eis, aqui, um álbum de puro funk. Trabalhado e moldado cuidadosamente para oferecer uma experiência sensorial repleta de maciez, sensualidade, frescor, mas também suor, provocação e vivacidade.

Com direito à união de diversos sons de tecla, como o hammond, o wurlitzer e o fender rhodes, o álbum fornece texturas que vão desde o veludo ao dulçor ácido. A partir daí, cria-se um contraponto sensorial interessante que, por vezes, é capaz de romper o estado de torpor generoso ao qual as estruturas rítmico-melódicas colocam o espectador.

Não existe, aqui, menção alguma de linearidade e um completo minimalismo estrutural. Se existe, é apenas por um período que, rapidamente, se transforma em algo grandioso e irresistível. Nítido principalmente no decorrer de suas quatro primeiras músicas, esses caráteres, invariavelmente, estão presentes em toda a track list, mas, talvez, não de uma maneira tão enaltecida.

Como uma espécie de homenagem não verbal a esse gênero histórico culturalmente representativo que é o funk, Lampin’ provou sua versatilidade ao fundir, a essa paisagem sonora, nuances de R&B quando se propôs explorar um toque de romantismo apaixonado. Essa é mais uma prova da musicalidade e da sensibilidade do Synthonic que, com o presente material instrumental, consegue, simplesmente, levar o ouvinte ao êxtase.

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