A faixa já é capaz de envolver o ouvinte com uma espécie de sensualidade aveludada curiosamente não inclinada para o lado da sedução, da libido, mas, sim, de uma espécie de ânimo convidativo. Diante da interação direta entre o compasso rítmico estruturado a partir do estalar de dedos e de uma sonoridade adocicadamente sintética, Into You acaba migrando, inevitavelmente, para um ambiente de romantismo e provocação por meio da interpretação lírica assumida por Mia Delamar e seu timbre doce e grave proferido por entre melismas que auxiliam na aquisição do senso de fluidez.
Fugindo de maneira gritante da atmosfera na qual o ouvinte foi convidado a vivenciar na composição anterior, Whatever vem com uma postura mais intimista, quase, até, melancólica. Ainda que mantenha traços de sensualidade, principalmente em virtude da adoção de sonares percussivos opacos aparentemente pertinentes ao bongô, a faixa, por entre pronúncias melismáticas, traz Mia exortando uma postura cabisbaixa e reflexiva, auxiliando na percepção de que a faixa, mesmo diante dos pulsos rítmicos delicados, tenha, em si, um caráter analítico sobre o relacionamento vivido pela personagem lírica.
De início envolto em torpor e regido por linhas líricas agraciadas pelo uso do autotune de forma a promover a aquisição de novas texturas estéticas, a canção combina a embriaguez, o torpor e o inebriante com um senso um tanto ludibriante de bem-estar. Ganhando compasso e nuances de consistência com o surgimento de um enredo percussivo linear, mas penetrante, Anyway, principalmente por meio do sonar aveludado, doce e sintético que molda a base melódica, acaba conquistando uma identidade cheia de sedução e provocação.
É curioso. Afinal, a faixa traz consigo uma densidade até então inexperienciada e, portanto, inédita para o ouvinte. Explorando, a partir daí, menções de um drama ainda prematuro, a canção, felizmente, faz com que tal impressão se dissipe rapidamente conforme evidencia um ecossistema de personalidade brisante e, até, de certa forma, onírica. Lexicalmente sincopada, Personal, mesmo moldada perante um escopo rítmico linear, é capaz de ofertar fluidez graças à movimentação e à interpretação lírica assumida por Mia. Inclusive, é justamente esse detalhe que faz com que o refrão seja agraciado por uma estrutura conjuntural chiclete e viciante.
O veludo é um detalhe que irrompe diante do ecossistema em gradativa evidência. Graças à contribuição da sonoridade amaciada e aconchegante do fender rhodes pronunciada pelo teclado, a atmosfera não ganha apenas nuances de sedução. Ela flerta com o romantismo e, inclusive, com uma libido provocante. De aparência um tanto introspectiva, a faixa apresenta Mia sob um compasso lírico ligeiramente mais acelerado e com pronúncias verbais mais sincopadas. Mesmo diante de uma sonoridade que, quanto mais a música se desenvolve, mais se mostra de caráter entorpecente, Cool – MiMix é marcada por presenças enfáticas de uma mistura entre sobreposições vocais e backing vocals que engrandece a desenvoltura lírica de Mia, enquanto os pulsos rítmicos dão, à música, a consistência que faltava.
Love Me… Not não pode ser entendido simplesmente como um disco de natureza R&B. Quer dizer, ainda que esse gênero musical de fato compreenda todo o seu DNA, o material tem, em si, uma identidade que traz consigo sedução, provocação, ardência e nuances de melancolia que se evidencia a partir de uma conjuntura estético-estrutural que se mostra diante de sensos românticos, melancólicos, nostálgicos e alegres.
Agraciado por construções rítmicas simples, mas preenchido por pulsos bem marcados e consistentes, o álbum ainda se deleita no fato de conseguir apresentar a suavidade e o contágio do pop por meio da proposta sônica por ele oferecido. É assim que ele é capaz de, inclusive, se evidenciar leve, fresco e frágil.
Ainda que tenha seus cinco primeiros títulos como seus verdadeiros destaques pelo fato de trazerem a sensualidade e o romantismo de maneira mais transparente, Love Me… Not é um álbum que, em sua máxima essência, convida o ouvinte para pensar sobre temas como amor, desilusão, resiliência e autoestima de maneira a misturar o introspectivo com o expansivo. Um material, de fato, marcante e envolvente.
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