De primeiro momento, parece que há um erro. Sequer um som é ouvido enquanto a execução segue seu curso contanto os segundos. Gradativa e felizmente, em dado momento um toque sonoro sintético com uma textura levemente áspera é percebido aos solavancos. É então que o ouvinte se dá conta que esse som é, na verdade, um coro que dá base para o amadurecimento da faixa, que se transforma rapidamente em um produto rap sincopado. Entre subgraves e uma voz masculina equilibradamente grave vinda de Ruff Child, Thanks se consagra como uma faixa de boa fluidez e envolvimento.
Ao contrário daquilo que se viveu na composição anterior, aqui o ouvinte já tem acesso à parte do instrumental logo nos primeiros instantes introdutórios. Nesse aspecto, a bateria é aquele elemento que se apresenta de imediato, oferecendo uma levada rítmica amaciada de grande noção de movimento amaciado. Mesmo em meio aos instantes de pausa em seu seguimento, o beat acaba se tornando o fator principal da receita instrumental de Lazarus, música na qual, mesmo com a presença de idas e vindas de uma linha lírica sintética, marca a experiência sensorial do ouvinte com suas nuances entorpecentes e a adoção de trechos com vocais em tons editadamente graves.
Da mesma forma como na canção anterior, o presente produto sônico nasce por meio do escopo rítmico. Aqui, traços de bumbos sequenciais e um toque tilintante semelhante ao do pandeiro não entregam apenas movimento, mas, sim, uma interessante e marcante menção de sensualidade. Contribuindo para a aquisição de uma textura macia, esse beat segue uma linearidade insistente que, felizmente, não atrapalha a experiência sônica do ouvinte. Afinal, entre elementos vocais sintéticos inseridos sob a camada de domínio de Child, The Finest consegue oferecer ao ouvinte até mesmo um clima noturno convidativo e atraente.
Pautada na mesma base rítmica que guiou o paisagismo sonoro na composição antecessora, The 1st tem como diferencial os sons agudos inseridos pelo sintetizador, os quais acompanham, espaçadamente, o desenvolvimento lírico ofertado por Child. O interessante, aqui, é perceber como o som sequencial do chimbal consegue criar um efeito sensorial ao mesmo tempo hipnótico e entorpecente, garantindo, assim, domínio total da atenção do espectador.
Deliberadamente, o escopo rítmico, desde seu início, é o responsável por fazer o ouvinte se perceber hipnotizado, embriagado. Ainda assim, é interessante pontuar que Why traz consigo uma novidade extasiante ao espectador: frases líricas colocadas juntamente aos versos de Child que se pronunciam com uma estética aveludada e envolta em melismas sedutores que, rapidamente, destacam a breve presença do R&B na sua receita sonora.
Memento Mori não pode ser entendido como um álbum comum. Por meio de suas 13 faixas, ele explora, com a devida delicadeza, a crueza e o caráter orgânico do rap. Com direito ao uso equilibrado de subgraves, o que é um destaque positivo, o material consegue transitar, com leveza, entre a densidade e a suavidade, enquanto apresenta conteúdos verbais cheios de honestidade.
Com a sua ânsia de contar ao espectador como é ser um artista underground, Ruff Child consegue misturar adequadamente sons que chegam a pautar o marginal com outros capazes de extrair um veludo encantador. Mesmo que seja sonorizado de forma sintética, a sua alma é mantida e, a sua verdade, enaltecida.
Apesar de destacar as suas cinco primeiras faixas pelo fato de elas explorarem de uma melhor forma os apontamentos até aqui expostos, Memento Mori também deposita a devida atenção em outros títulos. Lazarus Instrumental e This Thing Of Ours 3 Instrumental, pelo fato de enaltecerem a presença de uma certa sensualidade amaciada no contexto sônico do álbum, recebem igualmente seu devido brilho.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/06oqit4WOODYvDoktI3OFl
Instagram: https://www.instagram.com/iamruffchild?igsh=MTF1ZGdqNnp4eGJ2eA%3D%3D

